Marinha e PF buscam por jornalista e indigenista desaparecidos na Amazônia

O inglês Dom Phillips e o brasileiro Bruno Pereira percorriam de barco desde sexta-feira (3) uma região muito tensa da Amazônia e foram vistos a última vez na manhã de domingo (5). Discurso de governo Bolsonaro aumentou as ameaças e a tensão em Atalaia do Norte, no Amazonas.

Dom Phillips e Bruno Pereira percorriam a região do Vale do Javari desde a sexta-feira (3) e, segundo o jornal inglês The Guardian, o jornalista trabalhava na produção de um livro com apoio da Fundação Alicia Patterson, sediada nos Estados Unidos.

Os dois saíram de Atalaia do Norte na manhã de sexta, numa embarcação da Funai com motor 40 HP. Para assegurar a viagem de ida e volta, o barco transportava 70 litros de gasolina, segundo Paulo Marubo.

O trabalho de vigilância é realizado como forma de coibir a atuação de caçadores e invasores das terras indígenas da região. Policiais da Força Nacional de Segurança também atuam na região.

Conforme a Amazônia Real apurou, os dois viajavam sem a presença de um barqueiro ou de indígenas mateiros. Por já ter sido chefe da Coordenação Regional Vale do Javari e coordenador geral de Índios Isolados e de Recente Contato da Funai, de onde saiu em março de 2021, e conhecedor da região “como a palma das mãos”, Bruno achou melhor ele próprio pilotar a embarcação. A proposta da viagem era para Dom Phillips conhecer o trabalho de monitoramento e proteção territorial desenvolvido pelos próprios indígenas, mas a dupla não chegou a entrar na Terra Indígena Vale do Javari.

O desaparecimento veio a público na manhã desta segunda-feira (6), por meio de nota conjunta divulgada pela Univaja e pelo OPI. Segundo o comunicado das duas organizações, o indigenista e o jornalista tinham como objetivo visitar a equipe de Vigilância Indígena que se encontra próxima a localidade chamada de Lago do Jaburu (próxima da Base de Vigilância da Funai no rio Ituí). O lago fica a 15 minutos de distância da comunidade de São Rafael. “Os dois chegaram ao local de destino ( Lago do Jaburu) no dia 3 de junho às 19h25. No dia 5, os dois retornaram cedo para a cidade de Atalaia do Norte, porém, antes pararam na comunidade São Rafael”, diz a nota.

A Base de Vigilância é um dos quatro postos da Funai de monitoramento de indígenas isolados e de recente contato dentro da TI Vale do Javari. O território indígena é onde há maior número de registros e referências de grupos isolados do Brasil.

“Os agentes da Funai já desceram o rio Ituí no mesmo trajeto percorrido por Bruno e Dom em busca de vestígio dos desaparecidos, mas sem sucesso”, disse um funcionário do órgão em Tabatinga, de onde partiram hoje as equipes da Polícia Federal e da Marinha. A distância de Atalaia do Norte é de duas horas de viagem em embarcações.

Lideranças estão preocupadas

O desaparecimento deixou os indígenas preocupados diante do clima de tensão na região provocado pela intensificação das ameaças sofridas por lideranças por denunciarem a ação de caçadores, pescadores e invasores aos territórios demarcados. Por estar na fronteira com a Colômbia e com o Peru, a área também é marcada pela atuação de facções criminosas que controlam o tráfico de drogas.

Em 6 de setembro de 2019 foi assassinado em Tabatinga, cidade que fica a duas horas de viagem de barco de Atalaia do Norte, o indigenista Maxciel Pereira dos Santos. Dias antes, ele tinha recebido ameaças de morte de caçadores por sua atuação em defesa da Terra Indígena Vale do Javari. Colaborador e ex-servidor da Funai, Maxciel foi “assassinado a sangue frio” diante de sua família em uma rua movimentada de Tabatinga, na tríplice fronteira do Brasil com Colômbia e Peru.

Mais de seis mil indígenas dos povos Marubo, Kanamari, Kulina, Matsés, Matís, Kobubo e grupos de recente contato e em isolamento voluntário vivem na Terra Indígena Vale do Javari. Líderes indígenas relatam o aumento das invasões de seus territórios e das ameaças desde a eleição de Jair Bolsonaro (PL) à Presidência da República, no final do ano de 2018.

Para Paulo Marubo, coordenador da União das Organizações Indígenas do Vale do Javari (Univaja), a retórica anti-índigena de Bolsonaro desde a campanha eleitoral é usada como amparo para os interessados em invadir terras indígenas, deixando as comunidades ainda mais vulneráveis. “O número de invasões às terras indígenas, e não só as daqui do Vale do Javari, aumentou. Nós sempre denunciamos à Funai, mas a Funai nunca se posicionou, nunca nos deu uma resposta”, disse Paulo Marubo à Amazônia Real. Ele próprio afirma ter recebido, recentemente, ameaças de morte em Atalaia do Norte.

Funcionário de carreira da Funai, Bruno Pereira está de licença para tratar de interesses particulares, segundo a fundação. “A Funai informa que acompanha o caso, está em contato com as forças de segurança que atuam na região e colabora com as buscas”, diz nota à imprensa. Em 2016, ele foi exonerado da coordenação do Vale do Javari da fundação após conflito com os indígenas Matís.

A reportagem apurou que Bruno Pereira continua como servidor de carreira da Funai, mas está licenciado, sem receber remuneração, para dar apoio aos trabalhos da Univaja.

“O MPF instaurou um procedimento administrativo para apuração e acionou a Polícia Federal, a Polícia Civil, a Força Nacional, a Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari e a Marinha do Brasil. Esta última já confirmou ao MPF que conduzirá as atividades de busca na região, por meio do Comando de Operações Navais”, diz o órgão.

Amigo fala de Dom Phillips

Jornalista freelancer no Brasil há pelo menos 15 anos, Dom Phillips, 57 anos, escreve para diversos veículos internacionais, além do The Guardian, onde é colaborador assíduo. Ele colabora também com Washington Post, The New York Times e Financial Times. Atualmente, mora em Salvador, na Bahia. Nos últimos três anos, com a destruição da política ambiental e indígena pelo governo Bolsonaro, passou a escrever com recorrência sobre as questões amazônicas, expondo ao mundo a devastação da mais importante floresta tropical do planeta. Neste trabalho, por várias vezes esteve na Amazônia para produzir suas reportagens.

“Vou falar como amigo pessoal do Dom. Ele é um jornalista sensacional, corajoso. Ele está em um projeto para escrever um livro sobre a Amazônia, projeto pessoal. Eu não sei bem porque ele está no Vale do Javari, talvez para o livro dele”, afirmou o também jornalista Jonathan Watts, editor global de Meio Ambiente do The Guardian, em entrevista à Amazônia Real. “Espero que ele apareça em breve a gente possa se encontrar.”

Watts afirmou estar muito preocupado com o desaparecimento do colega e pediu urgência às autoridades brasileiras nas operações de busca. Segundo informações repassadas pelo Ministério Público Federal no Amazonas, militares do Comando de Operações Navais, da Marinha, estão em deslocamento até a região onde Bruno e Dom foram vistos pela última vez.

Em texto publicado em seu site, o The Guardian manifestou preocupação com o desaparecimento do jornalista. “Dom Phillips desapareceu em viagem a um dos recantos mais remotos da Amazônia dias após receber ameaças”, diz trecho do texto. “O repórter estava viajando com Bruno Araújo Pereira, um ex-funcionário do governo encarregado de proteger as tribos isoladas do Brasil, que há muito recebe ameaças de madeireiros e garimpeiros que buscam invadir suas terras”.

O governo do Amazonas divulgou nota informando que determinou à Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) o envio de reforço policial especializado para o município de Atalaia do Norte, para apoiar as buscas e as investigações do desaparecimento do indigenista Bruno Araújo Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips.

“O titular da 50ª Delegacia Interativa de Polícia Civil (DIP), delegado Alex Perez, montou uma força-tarefa entre as polícias Militar e Civil, além de voluntários para intensificação das buscas na região, que já foram iniciadas”, diz a nota.

Jornalista freelancer no Brasil há pelo menos 15 anos, Dom Phillips, 57 anos, escreve para diversos veículos internacionais, além do The Guardian, onde é colaborador assíduo. Ele colabora também com Washington Post, The New York Times e Financial Times. Atualmente, mora em Salvador, na Bahia. Nos últimos três anos, com a destruição da política ambiental e indígena pelo governo Bolsonaro, passou a escrever com recorrência sobre as questões amazônicas, expondo ao mundo a devastação da mais importante floresta tropical do planeta. Neste trabalho, por várias vezes esteve na Amazônia para produzir suas reportagens.

“Vou falar como amigo pessoal do Dom. Ele é um jornalista sensacional, corajoso. Ele está em um projeto para escrever um livro sobre a Amazônia, projeto pessoal. Eu não sei bem porque ele está no Vale do Javari, talvez para o livro dele”, afirmou o também jornalista Jonathan Watts, editor global de Meio Ambiente do The Guardian, em entrevista à Amazônia Real. “Espero que ele apareça em breve a gente possa se encontrar.”

Watts afirmou estar muito preocupado com o desaparecimento do colega e pediu urgência às autoridades brasileiras nas operações de busca. Segundo informações repassadas pelo Ministério Público Federal no Amazonas, militares do Comando de Operações Navais, da Marinha, estão em deslocamento até a região onde Bruno e Dom foram vistos pela última vez.

Em texto publicado em seu site, o The Guardian manifestou preocupação com o desaparecimento do jornalista. “Dom Phillips desapareceu em viagem a um dos recantos mais remotos da Amazônia dias após receber ameaças”, diz trecho do texto. “O repórter estava viajando com Bruno Araújo Pereira, um ex-funcionário do governo encarregado de proteger as tribos isoladas do Brasil, que há muito recebe ameaças de madeireiros e garimpeiros que buscam invadir suas terras”.

O governo do Amazonas divulgou nota informando que determinou à Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) o envio de reforço policial especializado para o município de Atalaia do Norte, para apoiar as buscas e as investigações do desaparecimento do indigenista Bruno Araújo Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips.

“O titular da 50ª Delegacia Interativa de Polícia Civil (DIP), delegado Alex Perez, montou uma força-tarefa entre as polícias Militar e Civil, além de voluntários para intensificação das buscas na região, que já foram iniciadas”, diz a nota.

Por: Fábio Pontes e Elaíze Faria
Fonte: Amazônia Real

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