Projeto de educação patrimonial promove oficinas sobre memória e identidade no Sebo Porão Cultural

Entre pedras antigas, praças silenciosas e histórias que resistem ao tempo, Santarém, no oeste do Pará, começa 2026 sendo convidada a olhar para si mesma. Não para o espelho do presente apressado, mas para as marcas profundas da memória que moldam identidades. É nesse encontro entre passado e futuro que nasceu o projeto “Educação Patrimonial no Baixo Amazonas”, uma iniciativa que transforma patrimônio em diálogo, educação em pertencimento e memória em direito vivo.

O patrimônio cultural, mais do que monumentos ou ruínas, é um fio invisível que liga gerações. Garantido pela Constituição Federal como direito básico, ele sustenta a memória coletiva e ajuda a explicar quem somos. Partindo dessa compreensão, o projeto chega a Santarém com a missão de disseminar o valor da proteção do patrimônio cultural e provocar reflexões sobre as narrativas que constroem a história oficial do Baixo Amazonas.

A proposta vai além da teoria. Por meio de oficinas, rodas de conversa e caminhadas pela cidade, o projeto vai promover debates sobre educação patrimonial e construir, de forma coletiva, uma cartilha educativa voltada ao fortalecimento da identidade e da memória regional. A iniciativa foi contemplada pelo Edital nº 02/2025 de Fomento à Criação de Projetos Culturais do Estado do Pará e prevê a produção de 500 cartilhas, que serão distribuídas em escolas da região.

A primeira etapa, intitulada “Giro do Patrimônio Cultural e os Lugares de Memória”, acontece no próximo dia 10 de janeiro, no Sebo Porão Cultural, e propõe um reencontro com as narrativas que moldaram o Baixo Amazonas, muitas delas silenciadas ao longo do tempo.

Pela manhã, a Oficina I – Caminhando pelo patrimônio: Sítio Arqueológico Aldeia, das 8h às 11h, convida os participantes a mapear símbolos, memórias e narrativas que atravessam a Praça Rodrigues dos Santos, um espaço onde passado indígena, colonização portuguesa e heranças da diáspora africana se cruzam.

À tarde, das 16h às 19h, a Oficina II – Instrumentos de Proteção do Patrimônio Cultural aprofunda o debate sobre políticas públicas e mecanismos de salvaguarda, com palestras de Camila Jácome, Cecy Sussuarana e Débora Marcião.

Mais do que um ponto geográfico, a Praça Rodrigues dos Santos é o ponto de partida simbólico do projeto. Ali, convivem memórias sensíveis dos povos indígenas, marcas do período colonial e registros da presença negra na Amazônia. Repensar esse espaço é, também, repensar quem conta a história e a partir de quais vozes.

“O projeto pretende, sobretudo, fortalecer de forma coletiva as nossas noções de memória e identidade na região do Baixo Amazonas, repensando as narrativas existentes e a forma como os marcadores da história oficial vêm sendo construídos”, explica Débora Marcião, coordenador do projeto. Segundo ele, a proposta é incluir ativamente as vivências de quem mora na região e facilitar o entendimento dos instrumentos de proteção do patrimônio cultural.

O projeto conta com uma equipe multidisciplinar formada por pesquisadores com ampla atuação na área: a professora doutora em Arqueologia Camila Jácome (UFOPA), especialista em arqueologia pré-colonial e tecnologias cerâmicas; a arquiteta e urbanista Cecy Sussuarana, mestra pelo PPGSAQ/UFOPA; e Débora Marcião dos Santos, arqueólogo formado pela UFOPA e mestrando do IPHAN, com pesquisas voltadas à preservação cultural e à gestão de políticas públicas.

As inscrições para as oficinas estão abertas e podem ser feitas por meio de formulário online:
👉 https://forms.gle/8FABZECD9sK5uakW9

Como legado, o projeto lançará, em julho, cartilhas educativas em versões acessíveis, com audiodescrição e Libras, que serão distribuídas gratuitamente em escolas e universidades de Santarém, Belterra e Monte Alegre.

O projeto propõe um gesto simples e profundo: parar, ouvir e lembrar. Porque uma cidade que conhece sua história aprende, também, a cuidar do seu futuro.

Foto: Débora Marcião

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