# Conquista do voto feminino no Brasil resistiu à misoginia histórica

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- Published: 2026-08-02T11:38:27-03:00
- Author: Redação

Os ataques ecoam pelo tempo. “Minha mulher não irá votar”, disse o senador constituinte
Coelho e Campos, em 1891. No mesmo ano, outro parlamentar, Serzedelo Corrêa, afirmou
que jogar a mulher no meio das paixões e das lutas políticas é “tirar-lhe a santidade”.

Depois de 135 anos, mais discursos violentos reaparecem. “Mulher vota estatisticamente
mal, principalmente as solteiras. As casadas costumam acompanhar o marido”, afirmou
o influenciador Paulo Figueiredo (neto do ex-presidente João Figueiredo).

**Os reiterados discursos machistas que atacam o voto feminino ao longo da história
do Brasil podem ser compreendidos em diferentes facetas como reações aos avanços
da cidadania das mulheres, segundo afirmam estudiosas do tema do sufrágio em entrevistas
à Agência Brasil. **Elas explicam que, do ponto de vista histórico e político, o
que chama a atenção não é o ineditismo do discurso, mas a continuidade e as ameaças.

![Brasília - DF - 30/07/2026 - Conquista do voto feminino no Brasil resistiu à misoginia
histórica. (Constituição de 1891, a primeira da República). Foto: Acervo Arquivo
Nacional](https://i0.wp.com/imagens.ebc.com.br/3Npao_9TW7bXqPNO70AX7RTyt8E%3D/754x0/
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07/30/constituic3a7c3a3o.jpg?w=735&ssl=1 "Acervo Arquivo Nacional")

Constituição de 1891, a primeira da República, rejeitou o sufrágio feminino – **
Foto: Acervo Arquivo Nacional**

## “Luta permanente”

Por outro lado, há inspirações concretas históricas, por parte das experiências 
da luta sufragista, para ações de resistência. “A linguagem mudou, mas a lógica 
patriarcal, misógina e machista é a mesma”, afirma a professora de direito Fernanda
Abreu, da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN).

**A estudiosa destaca que o voto feminino no Brasil foi uma conquista obtida contra
a resistência do Estado e da sociedade machista. Não foi uma concessão espontânea**.“
Direitos não se mantêm sozinhos. Eles exigem luta permanente”, diz.

Fernanda avalia que essas manifestações questionando o voto da mulher ressurgiram,
em 2026, com uma força “perturbadora”.

> “Parece absurdo, mas é verdade. Do ponto de vista jurídico-constitucional, qualquer
> discurso que questione o voto feminino no Brasil viola o Artigo 14 da Constituição
> Federal de 1988, que estabelece o sufrágio universal sem distinção de sexo”, explica.

A professora acrescenta que o discurso ataca o Artigo 5º da Constituição, que veda
qualquer tipo de discriminação. Além de inconstitucionais, as manifestações operariam
um discurso criminoso. Ela pondera que há iniciativas para acionar a Procuradoria-
Geral da República para tratar “dessa questão gravíssima”.

A pesquisadora diz que **as falas do influenciador Paulo Figueiredo conectam-se 
diretamente com o movimento antifeminista norte-americano, que defende abertamente
o fim do sufrágio feminino.**

## Inteligência diferenciada

Do ponto de vista histórico, a pesquisadora Cibele Tenório, da Universidade de Brasília(
UnB), assinala que a recorrência dos ataques em mais de um século é “absurda”, mas
não surpreende em uma estrutura de machismo estrutural.

“As sufragistas do século 20 lutaram e tiveram inteligência diferenciada para garantir
o direito para todas nós”, afirma.

![Brasília - DF - 30/07/2026 - Conquista do voto feminino no Brasil resistiu à misoginia
histórica. (Alagoana Almerinda Farias Gama). Foto:  Acervo Arquivo Nacional](https://
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Almerinda Gama, sufragista alagoana – **Foto:  Acervo Arquivo Nacional**

Jornalista e doutoranda em história, Cibele é biógrafa da sufragista alagoana [Almerinda Gama (1899 – 1999)](https://agenciabrasil.ebc.com.br/cultura/noticia/2024-12/partituras-de-sufragista-negra-sao-descobertas-e-ganham-vida-no-piano).
Almerinda foi uma das primeiras mulheres negras a atuar na política brasileira. 

Cibele Tenório pondera que, diante de ataques que chegam ao tempo presente, é necessário
manter atenção a toda e qualquer ameaça, ainda que não se transforme em uma hipotética
e inimaginável proposta de revogação de direitos de mulheres.** No entanto, as ofensivas
antigênero podem fazer parte de uma estratégia que barre evoluções de direitos. **

“Mas podem, de alguma forma, gerar incômodo ou desestímulo à participação, o que
é muito perigoso.” Cibele lembra que, em 1890, a Constituinte brasileira rejeitou
o sufrágio feminino, alegando incapacidade da mulher para a política.

## Intimidações

**Em 2026, em um cenário em que as mulheres representam mais de 53% do [eleitorado brasileiro](https://sig.tse.jus.br/ords/dwapr/r/seai/sig-eleicao-eleitorado/painel-perfil-eleitorado?session=111313426516891),
atacar o voto feminino reveste-se também em uma estratégia de intimidação política,
apontam as pesquisadores.**

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), **estão aptas a votar, em 2026, 83.877.126
brasileiras. Os homens somam 74.845.001.** Em relação ao nível educacional formal,
a maior faixa das mulheres está no ensino médio completo (29,28%, contra 26,35% 
dos homens). Terminaram a faculdade 13,08% das eleitoras (contra 9,1% dos homens).

**Eis um cenário de resistência: as mulheres são maioria da população brasileira(
51,5%), minorizadas em direitos, e desestimuladas ao mercado de trabalho ou para
a participação política.** Conforme explica a professora Hildete Pereira, pesquisadora
de economia e gênero da Universidade Federal Fluminense (UFF), a luta não se tornou
simples porque, no Brasil, o estímulo às mulheres é para a função de cuidadora, 
e não de representante.

Entre as mulheres que vão votar neste ano, 51,76% são pardas, 10,96%, pretas e 35,71%
brancas. Outras estatísticas divulgadas pelo TSE dão conta que 50% das eleitoras
declararam-se solteiras.

As pesquisadoras ouvidas pela reportagem dizem que esses discursos integram o que
a teoria feminista tem chamado de _backlash_ (expressão que pode ser traduzida como“
retaliação”) por parte dos homens. **A cada evolução de direitos, surge pela estrutura
misógina alguma tentativa de violação.**

> “Quanto mais as mulheres avançam, mais as estruturas que sustentam a misoginia,
> o patriarcado e o machismo resistem”, diz Fernanda Abreu, da UERN.

## Espaços de violência

As pesquisadoras identificam que **a primeira Constituição Republicana, a de 1891,
rejeitou explicitamente o sufrágio feminino com o argumento oficial de que a mulher
era intelectualmente incapaz para a vida pública e que ela deveria se limitar ao
espaço doméstico.**

Entre os ataques comuns, no plano social e cultural, as sufragistas eram ridicularizadas
inclusive na imprensa, nas rodas sociais, e chamadas de “mulheres-homens”. Isso 
porque a mulher casada era legalmente definida como dependente do marido, e a solteira,
dependente do pai.

A professora e historiadora Ana Prestes, da Universidade de Brasília (UnB), acrescenta
que a ridicularização na imprensa, inclusive, ocorria, por exemplo, de forma ilustrada.

> “A gente tem, nessa época, muitas charges em que aparecem o homem de avental na
> casa e a mulher com o terno na rua para ridicularizar. Principalmente aqueles 
> homens que chegaram a defender o voto da mulher.”

![Brasília -Df -30/07/2026 - Conquista do voto feminino no Brasil resistiu à misoginia
histórica. ( Leolinda Daltro) Foto: Acervo Arquivo Nacional](https://i0.wp.com/imagens.
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com.br/sites/default/files/thumbnails/image/2026/07/30/captura_de_tela_2026-07-30_as_17.41.12.
jpg?w=735&ssl=1 "Acervo Arquivo Nacional")

Leolinda Daltro foi uma das líderes mais combativas do sufragismo – **Foto: Acervo
Arquivo Nacional**

Segundo contextualiza a professora Fernanda Abreu, da UERN, esse argumento era usado
para negar às mulheres a capacidade do voto consciente. “No âmbito jurídico individual,
em 1919, a Leolinda Daltro [1859-1935], que foi a fundadora do Partido Republicano
Feminino e uma das líderes mais combativas do sufragismo, teve sua candidatura à
Intendência Municipal do Distrito Federal negada pelo Poder Público.”

Inclusive, Leolinda Daltro foi uma das pessoas mais massacradas pela imprensa brasileira
da época, segundo a professora e historiadora Ana Prestes. “[Os jornais] encontravam
forma de colocar a atividade dela como se fosse praticamente uma baderneira, uma
mulher que queria quebrar tudo”, afirma.

**As pesquisadoras exemplificam que o Código Eleitoral de 1932 chegou a incluir 
a exigência de autorização do marido para que a mulher casada pudesse votar. A cláusula
só foi retirada do texto final depois de muita pressão das sufragistas**. “Nada 
ocorreu sem luta e inteligência estratégica para conseguir aliados nessa causa”,
explica Cibele Tenório, doutoranda na UnB.

Elas são da opinião de que a resistência ao voto feminino não foi ligada à questão
de um conservadorismo pontual. **Foi institucionalizada como política pública e 
norma jurídica.**

As estudiosas assinalam que a trajetória de pressão feminina tem um marco no ano
de 1910 com o Partido Republicano Feminino, a primeira legenda desse gênero que,
em 1917, promoveu uma marcha de 90 mulheres pelo centro do Rio de Janeiro defendendo
a causa.

**As sufragistas criaram jornais e escolas para debater o tema. Inclusive para contrapor
os discursos machistas que escorriam pelas páginas dos jornais tradicionais.**

Diante dessa efervescência cultural e científica das primeiras décadas do século
20, as mulheres buscavam diferentes direitos, segundo explica a professora de ciência
política Marlise Matos, do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher, da Universidade
Federal de Minas Gerais (UFMG).

 Ela explica que as mulheres lutavam por duas outras grandes agendas – maior acesso
à escolarização e ao mercado de trabalho. “Mas, sem dúvida, a conquista do voto 
feminino era fundamental para a cidadania efetiva. Isso foi travado com muita tensão
e disputas”, diz. 

![Brasília - DF - 30/07/2026 - Conquista do voto feminino no Brasil resistiu à misoginia
histórica. (Bertha Lutz na conferência de fundação da ONU, em 1945: diplomata e 
cientista também lutou pelo voto feminino. Foto: Acervo Arquivo Nacional
](https://
i0.wp.com/imagens.ebc.com.br/YKiqmBgNh1Ok8cYe8LJo-kBWQok%3D/463x0/smart/https%3A//
agenciabrasil.ebc.com.br/sites/default/files/thumbnails/image/2026/07/30/imagem_materia-
4.jpeg?w=735&ssl=1 "Acervo Arquivo Nacional")

Bertha Lutz também lutou pelo voto feminino – **Foto: Acervo Arquivo Nacional**

Não por acaso que Bertha Lutz (1894-1976) ficou reconhecida como um dos principais
nomes dessa batalha. “Ela sabia acionar pessoas e conversar inclusive com os mais
conservadores em busca de aliados”, diz Cibele Tenório.

A Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, em 1922, articulou governadores,
pressionou o Congresso e organizou manifestações. “Usou a imprensa nacional e internacional
e estabeleceu muitas conexões com o movimento sufragista global”, acrescenta a estudiosa
Fernanda Abreu, da UERN.

## Avanço legislativo

As pesquisadoras ouvidas pela** Agência Brasil **entendem que **o marco mais importante
é o Decreto 21.076 de 1932, o primeiro código eleitoral brasileiro a garantir o 
direito de as mulheres irem às urnas e também de votarem secretamente. O direito
foi solidificado na Constituição de 1934. O Brasil tornou-se o quarto país do Ocidente
a garantir o sufrágio feminino (depois do Canadá, Estados Unidos e Equador).**

No [Código Eleitoral de 1946](https://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1940-1949/decreto-lei-9258-14-maio-1946-417156-publicacaooriginal-1-pe.html),
o voto feminino passa a ser obrigatório para mulheres alfabetizadas. Esse novo marco
completou 80 anos em maio. A [Constituição](https://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1940-1949/decreto-lei-9258-14-maio-1946-417156-publicacaooriginal-1-pe.html),
promulgada em 18 setembro do mesmo ano, confirma a regra. A última Carta, a de 1988,
eliminou o requisito da alfabetização.

Para a professora da UFMG Marlise Matos, **o Estado brasileiro tem que reafirmar
o seu compromisso com os direitos políticos das mulheres brasileiras e reforçar 
campanhas informativas e publicitárias sobre a participação nas eleições.**

Ana Prestes, da UnB, aponta que um **caminho da resistência é o reforço nos processos
de educação formal**.  “Uma coisa que eu observo nas minhas pesquisas é que muitas
sufragistas eram professoras ou atuavam em cursos.”

“Eram pessoas que defendiam o ensinamento e a criatividade também”, completa. Ela
recorda que Bertha Lutz chegou a arrumar um avião para fazer um sobrevoo com panfletos,
no Rio de Janeiro. “Eram ousadas, persistentes e hábeis articuladoras”, diz a professora
e historiadora

**Por isso, é necessário romper com o apagamento e com a invisibilidade de mulheres
que lutaram por grandes causas, como a do voto feminino, a da educação e a do trabalho,
defende a professora Hildete Pereira, pesquisadora da UFF.**

A dependência financeira funcionaria como um obstáculo social de subalternidade,
inclusive no tempo presente. Além disso, o próprio mercado de trabalho garante salários
melhores aos homens em vista do machismo estrutural. Historicamente, segundo salienta,
políticas públicas devem reforçar o papel da mulher na sociedade, como em relação
à participação na política.

> “Essas mulheres do final do século 19 e início do século 20 nos ensinam, tanto
> tempo depois, que é preciso participar e não desistir”, ressalta Hildete Pereira.

[Fonte: Agência Brasil](https://agenciabrasil.ebc.com.br/)
