# Governo inicia pavimentação da BR-319 na Amazônia e devastação já é vista na região

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- Published: 2022-09-28T12:56:25-03:00
- Author: Redação

Menos de dois meses após a polêmica declaração de apoio feita pelo presidente Jair
Bolsonaro, as obras de pavimentação da BR-319 já são vistas no chamado Trecho do
Meio, mesmo antes da licença definitiva ser emitida pelo Ibama. De acordo com um
estudo do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), a reconstrução da 
estrada põe em risco o equilíbrio climático global por ameaçar “o último grande 
bloco de Floresta Amazônica intocada”.

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Os planos de pavimentação da velha estrada, um longo atoleiro abandonado há três
décadas ao sul de Manaus (AM), já vinham causando preocupação na comunidade científica
desde o início do atual governo, época que se iniciaram os “serviços de manutenção
e conservação”.

Em artigo publicado em 2020 pela Mongabay, o biólogo americano Philip M. Fearnside,
ganhador do Prêmio Nobel da Paz, alertou para os riscos da pavimentação da BR-319:“
A rodovia irá permitir que desmatadores migrem livremente do Arco do Desmatamento,
no sul da Amazônia Legal, para vastas áreas de floresta que sobrevivem em grande
parte por conta da dificuldade de acesso”.

Fearnside, que reside no Brasil e tem uma longa trajetória profissional dedicada
aos estudos da Amazônia, atualizou seus estudos sobre a BR-319 em março. No estudo
do Inpa, o biólogo afirma que a situação de destruição da Amazônia “foi agravada
pelo desmonte dos órgãos e da legislação de controle ambiental durante o governo
de Jair Bolsonaro”, e que “a rodovia BR-319 será um desastre social, econômico e
ecológico”.

Inaugurada no início dos anos 1970, durante a ditadura militar, a rodovia BR-319
foi projetada para ser um eixo colonizador de 830 km entre Porto Velho (RO) e Manaus(
AM), uma região de floresta densa, muito pouco habitada.

O asfalto foi mantido pelo governo militar por toda a estrada até meados dos anos
1980, fase em que os viajantes gastavam cerca de 12 horas entre as duas capitais.

Abandonada desde a redemocratização, a obra não alcançou seus objetivos. Sem reposição
do asfalto por mais de 30 anos, metade da estrada foi consumida pela floresta. Com
alguma sorte, um bom veículo 4X4 e combustível extra (não há postos no Trecho do
Meio), a viagem completa passou a durar 5 dias ou mais.

A situação afugentou a maioria dos exploradores, e, por consequência, manteve o 
equilíbrio ambiental estável numa das áreas com maior biodiversidade do mundo.

Contudo, os “serviços de manutenção e conservação”, implementados por Bolsonaro 
no fim de 2019, possibilitaram a gradual volta do tráfego na BR-319. De carona, 
estão voltando os piores tipos de exploradores.

Grileiro derruba floresta para formar pasto: “Talvez ano que vem, com a reeleição
de Bolsonaro e a estrada asfaltada, eu consiga vender a terra 50 vezes mais cara
do que comprei”. Foto: Caio Guatelli.

O cenário se agravou em 28 de julho, quando o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) emitiu uma licença prévia para repavimentar
o Trecho do Meio, também chamado de Lote C, localizado entre os quilômetros 198 
e 655.

Oficialmente, a permissão não é considerada suficiente para executar a obra, mas
o presidente Jair Bolsonaro se manifestou em apoio no dia seguinte, através de sua
conta no Twitter: “Os brasileiros já haviam se acostumado com carros e caminhões
atolando na BR319, que liga Porto Velho-RO a Manaus-AM. Esse tempo, felizmente, 
está chegando ao fim. O Ibama deu licença prévia à nossa iniciativa de asfaltar 
os 405 km restantes da rodovia, abandonados há 30 anos!”.

A atitude do presidente repercutiu na imprensa brasileira, que, em contraponto, 
trouxe à tona os estudos científicos publicados por Fearnside que tratam dos impactos
da rodovia. Entre outras conclusões do premiado biólogo, replicadas recentemente
pelos veículos nacionais, alguns de seus estudos indicam que “esta área [do entorno
da BR-319] contém um enorme estoque de carbono que, se liberado em poucos anos, 
seria crítico para levar o sistema climático global além de um ponto de inflexão,
onde um efeito-estufa descontrolado ficaria fora das capacidades de controle humano”.

Além do aumento de operações do DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de
Transportes) nos “serviços de manutenção e conservação” da BR-319, foi colocada 
em operação na semana passada a primeira usina móvel de asfalto contratada pelo 
governo, dentro do Trecho do Meio, próximo à sede do município de Careiro Castanho(
AM).

A máquina, custeada pelo Governo Federal dentro de um contrato de R$ 165 milhões
com o consórcio Tecon/Ardo/RC, tem como objetivo a recuperação e asfaltamento de
um segmento de 52 quilômetros dentro do Trecho do Meio.

A operação de pavimentação, que já pode ser vista entre os quilômetros 198 e 250,
depende de autorização federal do Ibama e da autorização estadual do Ipaam (Instituto
de Proteção Ambiental do Amazonas).

O Ipaam, que em setembro de 2021 foi intimado pelo Tribunal de Contas do Amazonas
para esclarecer a falta de estudos de impacto ambiental na instalação da usina de
asfalto na BR-319, emitiu no dia 1º de setembro uma licença de operação para o consórcio
iniciar os trabalhos com a máquina.

Trecho de asfalto entre Porto Velho (RO) e Humaitá (AM) tem 230 Km e é conservado
desde a década de 1970. Na outra extremidade da BR-319, entre Manaus (AM) a Careiro
Castanho (AM), também há outro trecho mantido em asfalto, de 200 Km. Foto: Caio 
Guatelli

Após derrubar as árvores, grileiro ateia fogo na floresta como parte do processo
para formação de pasto ou área de lavoura, condições que “valorizam” o lote no mercado
da região. Foto: Caio Guatelli
Questionada pelo Mongabay sobre a existência de um
estudo de impacto ambiental para a emissão da última licença, a assessoria de imprensa
do órgão se limitou a dizer que essa função “compete ao Ibama”.

Curiosamente, tanto a licença de instalação quanto a de operação, ambas expedidas
pelo Ipaam ao consórcio vencedor, trazem a mesma avaliação de “Potencial Poluidor/
Degradador”, descritas nos documentos como “Grande”.

Sobre um eventual conflito desta licença com o cronograma de licenças do Ibama, 
o Ipaam respondeu por nota: “a Licença de Operação (LO) foi emitida no 1º de setembro
do corrente ano, com o objetivo de liberar atividades de apoio no trecho C da rodovia[
Trecho do Meio], deste modo, a liberação não entra em conflito com o cronograma 
do Ibama, em fase de licença prévia”.

Procurado pela Mongabay para comentar a situação, o Ibama emitiu uma nota em 15 
de setembro: “O Ibama esclarece que a licença prévia emitida atesta a viabilidade
do empreendimento para a etapa de planejamento do projeto e não autoriza, ainda,
a realização de obras no trecho em licenciamento. É importante destacar que o empreendedor
precisa apresentar estudos que visem mitigar todos os impactos ambientais previstos.”

Questionado pela Mongabay sobre o cronograma de pavimentação da BR-319, o DNIT também
se manifestou por nota, no mesmo dia 15 de setembro: “Após a publicação da licença
de operação do canteiro de obras, as equipes do DNIT iniciaram os serviços de terraplenagem
das obras de pavimentação e reconstrução do segmento de 52 km no lote C da BR-319/
AM, também chamado de Lote Charlie, que vai do km 198 ao km 250. As equipes aproveitam
o período de estiagem na região para avançar com os serviços de terraplenagem”.

Com os novos investimentos na estrada, o Trecho do Meio virou uma larga e bem compactada
pista de cascalho e terra batida.

Por lá, os poucos atoleiros que aparecem são tapados diariamente por alguma das 
diversas equipes de manutenção. Já é possível viajar de Porto Velho a Manaus em 
menos de 16 horas, mesmo com um carro comum.

O transporte de cargas entre as duas capitais amazônicas, que por décadas havia 
migrado para as balsas do Rio Madeira, ou para a ponte aérea, já voltou a ser frequente
na BR-319.

Investidores, fazendeiros e grileiros já iniciaram seus trabalhos nas bordas da 
rodovia. A exploração da floresta vem crescendo exponencialmente, na mesma medida
que avançam os investimentos no novo pavimento da rodovia.

Ao longo do Trecho do Meio, em algumas vilas que cresceram rapidamente nos últimos
anos, o projeto de pavimentação parece ter tido um efeito positivo para o presidente
candidato à reeleição.

Em Realidade, pequeno distrito do município de Humaitá (AM), um painel oferece apoio
à Bolsonaro: “BR-319 e distrito da Realidade apoiam Bolsonaro-2022”.

Também é comum ver caminhões totalmente cobertos com a propaganda eleitoral de Bolsonaro
pela estrada. Colar a imagem do candidato, frequentemente acompanhada da frase “
fechado com Bolsonaro”, parece ser uma febre entre os caminhoneiros que trafegam
no Trecho do Meio.

“O trabalho das máquinas cresceu muito de uns dias para cá. Nunca vimos um empenho
tão grande como esse”, disse Luis Carlos Moreira da Silva, um motorista de caminhão
que usa a rota da BR-319 há quatro anos e que diz ser eleitor de Bolsonaro.

Os ruídos causados por essa nova obra pública, especialmente após as declarações
do presidente Bolsonaro dadas no fim de julho, atraíram investidores e diversos 
grileiros para a região.

Com a chegada dos forasteiros, a devastação já cresceu, e o cenário na floresta 
é alarmante.

“Menos de 1 mês atrás, deixei Rondônia para comprar 50 mil alqueires na beira da
319. Foi uma pechincha. Agora já estou derrubando e ateando fogo para formar pasto.
Talvez ano que vem, com a reeleição de Bolsonaro e a estrada asfaltada, eu consiga
vender a terra 50 vezes mais cara do que comprei”, disse à Mongabay um posseiro 
enquanto segurava um isqueiro numa mão e uma garrafa de gasolina na outra, bem em
frente a uma área de mata prestes a ser queimada.

O homem, que pediu anonimato, diz que já acumula R$ 10 milhões em valores latifundiários
dentro do estado do Amazonas.

“Comecei com esse negócio quatro anos atrás, após ser solto da prisão. Naquela época
eu não tinha nada, agora sou um milionário”, disse o homem, que esteve condenado
12 anos por assalto.

Poucas semanas antes, ele havia queimado e cortado com uma motoserra uma parte da
mata, cerca de 50 alqueires dentro de “sua” terra, bem em frente à câmera desta 
reportagem.

Dois dias antes, o Inpe (Instituto Brasileiro de Pesquisas Espaciais) detectou 3.300
pontos incendiários dentro da Amazônia Brasileira, o pior cenário em 15 anos.

Assim como este homem, muitas outras pesoas estão chegando pela BR-319 com o sonho
de enriquecer e ter seu próprio pedaço de terra.

A cerca de 50 quilômetros de Careiro Castanho (AM), a vila mais próxima do Trecho
do Meio, Nivaldo Pedro dos Anjos, um homem de 44 anos, vive em uma estrutura apoiada
nos galhos das árvores. “Estou morando aqui nesta casa de árvore há 7 meses. Meu
sonho é grande e vou alcançá-lo”, disse sem dar detalhes.

A “casa” de Nivaldo fica 5 metros acima do solo e a 50 metros da estrada. A estrutura
que acomoda apenas uma pessoa é feita de pedaços de madeira amarrados a quatro árvores,
o teto é de plástico removível e não há paredes. Para chegar lá, Nivaldo tem que
escalar os troncos.

A casa da árvore fica em um lote de 50 alqueires de floresta densa, entre duas outras
propriedades. Ao lado de Nivaldo mora seu patrão, Wendrisson Dias, um homem de 23
anos que levou a esposa (que está grávida de 6 meses) e dois filhos para morar com
ele em uma casa de madeira à beira da estrada, cercada pela floresta.

Wendrisson e sua família, que moram lá há dois anos, são uma espécie de corretores
de imóveis. “Gostamos de morar aqui. Além de criar porcos e caçar animais para alimentar
minha família, tento vender alguns terrenos.”

No Km 222, região que faz parte do município de Borba (AM), vive a família de Herliane
Gonçalves. Numa casa de madeira à beira da estrada, ela vive com o marido e três
filhos, um rapaz de 16, uma moça de 12, e um menino de 6 anos. A família se instalou
ali há um ano, após deixaram Ji-Paraná (RO) para tentar formar uma pequena fazenda
nos 21 alqueires que haviam acabado de comprar por R$ 35 mil.

Por enquanto, a única parte desmatada da propriedade é o entorno da casa, e a família
ainda está fazendo o levantamento geográfico de toda a propriedade para ter o devido
registro da terra junto ao Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária).“
Nosso projeto é formar um pasto. Por enquanto criamos só alguns porcos e umas poucas
galinhas.”

O sustento dos Gonçalves vem da pequena mercearia na varanda da casa. O local também
funciona como borracharia e ponto de conexão de wi-fi, e é o único comércio existente
num raio de 20 km muito pouco habitado. A maior parte da clientela são os raros 
viajantes da estrada, quase todos caminhoneiros.

Os filhos de Herliane não vão à escola. “A escola mais próxima fica a 60 km daqui,
em Tupana [distrito de Borba]. Não tem como ir até lá nessa estrada de terra”, disse
a mulher no fim do mês de agosto, quando a chegada do asfalto ainda era incerto.

Mas em 15 de setembro Herliane filmou as máquinas iniciando a pavimentação da estrada
em frente à sua casa e comemorou: “Com fé em Deus, teremos asfalto para levar as
crianças para a escola”.

Cenário De Devastação
No extremo sul da estrada, a poucos quilômetros de Humaitá—
cidade de 60 mil habitantes no sul do Amazonas —, fica o fim do trecho que nunca
perdeu o asfalto (e início do Trecho do Meio). Há um limite nítido entre a presença
humana e a floresta. O que mais chama a atenção de quem passa por ali é um enorme
painel de propaganda, perto do entroncamento da BR-319 com a rodovia Transamazônica.

A estrutura, montada no meio de um pasto plano e sem árvores, atrai o gado que busca
sombra sob uma grande fotografia do presidente Bolsonaro. A propaganda mostra a 
figura do presidente ao lado de uma bandeira nacional e um texto: “Somos Bolsonaro.
Acreditamos em Deus e valorizamos a família”.

A poucos quilômetros dali fica a entrada da Maderon Madeiras, uma barulhenta serraria
localizada no último trecho pavimentado. É lá que os caminhões carregados de toras
amazônicas desembarcam a carga, carregada em diversas derrubadas, muitas ilegais,
ao longo da BR-319.

No portão da serraria, uma bandeira brasileira tremula — o estandarte tem servido
de confirmação de posicionamento ideológico comum entre os proprietários da região,
uma espécie de apoio à polêmica política soocioambiental do presidente da República.

Apesar das imagens de satélite ainda mostrarem vasta floresta e pouca urbanização
nos arredores do Trecho do Meio da BR-319, por terra tem sido comum ouvir ruídos
de motosserra e ver caminhões carregados de toras deixando os ramais abertos na 
mata. Em alguns trechos, caçadores são vistos durante a noite, carregando animais
abatidos ou ainda vivos. Mas é o fogo que não encontra limites e se faz onipresente
especialmente nesses últimos dias, consumindo toda a margem da questionável rodovia.

[Fonte: Mongabay](https://oquartopoder.com.br/governo-inicia-pavimentacao-da-br-319-na-amazonia-e-devastacao-ja-e-vista-na-regiao/ Mongabay)
