# Mudanças climáticas e savanização da Amazônia irão impactar populações pelo calor

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- Published: 2021-10-01T13:01:28-03:00
- Author: Redação

O desmatamento em grande escala da Floresta Amazônica associado às mudanças climáticas
aumentará o risco de exposição ao calor extremo. Esses níveis de calor, que serão
fisiologicamente intoleráveis ao corpo humano, afetarão profundamente regiões onde
residem populações altamente vulneráveis, segundo** [estudo publicado hoje](https://portal.fiocruz.br/noticia/mudancas-climaticas-e-savanizacao-da-amazonia-irao-impactar-populacoes-pelo-calor)**
pelos pesquisadores Beatriz Alves de Oliveira, da Fiocruz; Marcus Bottino e Paulo
Nobre, ambos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe); e Carlos Nobre,
do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP).

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** Segundo os resultados do estudo Desmatamento e mudanças climáticas projetam aumento
do risco de estresse térmico na Amazônia Brasileira, existe um limite de desmatamento
da Amazônia que impactará a sobrevivência da espécie humana **

Trata-se da primeira análise dos impactos combinados do desmatamento e das mudanças
climáticas na saúde humana. Segundo os resultados do estudo Desmatamento e mudanças
climáticas projetam aumento do risco de estresse térmico na Amazônia Brasileira,
existe um limite de desmatamento da Amazônia que impactará a sobrevivência da espécie
humana. Esse limite é acompanhado por um “efeito extremo na saúde” que deixará, 
até 2100, mais de 11 milhões de pessoas da região Norte do Brasil expostas ao risco
extremo de estresse térmico, quando teremos atingido os limites de adaptação fisiológica
do corpo humano devido ao desmatamento. Em outras palavras, não seremos capazes 
de manter nossa temperatura corporal sem adaptação.

Os pesquisadores enfatizam a necessidade urgente de medidas coordenadas para evitar
efeitos negativos sobre as populações vulneráveis. “Os efeitos locais das mudanças
no uso da terra estão diretamente ligados às políticas e estratégias de sustentabilidade
das florestas, e as mudanças nessas áreas estão ao alcance da sociedade. Nessas 
áreas, o setor de saúde poderia ser um importante motivador na formulação de políticas
integrativas para mitigar o risco de estresse térmico e a redução da vulnerabilidade
social”, afirma Beatriz Oliveira, pesquisadora da Fiocruz Piauí.

**Desmatamento e aumento da temperatura corporal**

Sob condições ambientais desfavoráveis que incluem alta exposição à temperatura 
e umidade, as capacidades de resfriamento do corpo são enfraquecidas, resultando
em aumento da temperatura corporal. A exposição sustentada a tais condições pode
ocasionar desidratação e exaustão e, em casos mais graves, tensão e colapso das 
funções vitais, levando à morte. Além disso, o estresse causado pelo calor pode 
afetar o humor, os distúrbios mentais e reduzir o desempenho físico e psicológico
das pessoas.

“As condições extremas de calor induzidas pelo desmatamento podem ter efeitos negativos
e significativamente duradouros na saúde humana. Precisamos entender globalmente
que se o desmatamento continuar nas proporções atuais, os efeitos serão dramáticos
para a civilização. Essas descobertas têm sérias implicações econômicas que vão 
além dos danos às lavouras de soja”, afirma Paulo Nobre, do Inpe.

No Brasil, os efeitos combinados do desmatamento e das mudanças climáticas já estão
sendo relatados com base em dados observacionais, com os valores de aquecimento 
mais extremos relatados em grandes áreas desmatadas de 2003 a 2018.

Nas modelagens climáticas realizadas pelos pesquisadores, a combinação de mudança
no uso da terra e aquecimento global pode ampliar ainda mais os riscos ocupacionais.
Além disso, fatores induzidos pelo homem responsáveis pela savanização da Amazônia,
como aumento do número de incêndios florestais, bem como expansão de áreas agrícolas
e atividades de mineração, tendem a impulsionar o crescimento desordenado e um processo
de urbanização não planejado, com falta de infraestrutura sanitária básica e trabalho
informal mais frequente. Esses fatores estão associados ao processo de desmatamento
e ao aumento da desigualdade e da vulnerabilidade, que atuam em sinergia com os 
efeitos das mudanças climáticas, aumentando ainda mais a demanda por serviços de
saúde e proteção social na região da Amazônia brasileira.

**Impacto na economia**

Os resultados do estudo mostram que os efeitos serão em escala regional, com os 
maiores impactos diretos na região Norte do país. Do total de 5.565 municípios brasileiros,
16% deles (30 milhões de pessoas) sofrerão impactos por estresse térmico com a savanização
da Floresta Amazônica. Da população impactada, 42% residem em municípios da Região
Norte, que apresenta baixa capacidade de resiliência e alta vulnerabilidade social.
Nesta região, aproximadamente, 12 milhões de pessoas poderão ser expostas ao risco
extremo de estresse por calor até 2100. Com a savanização da Amazônia e as limitações
na capacidade de adaptação da Região Norte do Brasil, a população dessa área poderá
viver em condições precárias de sobrevivência, impulsionando efeitos como a migração
em massa, afirmam os autores.

Além disso, o aumento da exposição ao estresse térmico poderá impactar várias áreas
da economia, com redução da produtividade do trabalho, uma vez que os trabalhadores
estarão expostos a condições térmicas fatais. No Brasil, os trabalhadores ao ar 
livre já estão expostos ao estresse térmico, e as projeções apontam para um aumento
da exposição a alto risco nas próximas décadas. O aumento de 1,5°C na temperatura
média global, com base nas projeções dos modelos climáticos dos pesquisadores, poderá
representar 0,84% das perdas de jornada de trabalho até 2030, o equivalente a 850
mil empregos de tempo integral, principalmente nos setores agrícola e de construção
civil – na agricultura, o alto risco associado ao trabalho intenso e à sobrecarga
térmica já foi observado entre os cortadores de cana-de-açúcar.

Nas estimativas dos pesquisadores não foi considerado o crescimento populacional
ou mudanças na estrutura demográfica ou expectativa de vida. Assim, os resultados
expostos no estudo refletem os efeitos isolados da mudança climática e da savanização
e podem ser interpretados para representar os efeitos que seriam observados se a
população atual fosse exposta às distribuições projetadas de estresse térmico. Já
a vulnerabilidade da população exposta foi avaliada por meio do Índice de Vulnerabilidade
Social (IVS) dos municípios brasileiros. Este índice é baseado em 16 indicadores
que refletem fragilidades no sistema de saúde e educação (capital humano), infraestrutura
urbana e renda e trabalho.

**_Fonte: [Fundação Oswaldo Cruz](https://portal.fiocruz.br/) (Fiocruz) e [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais](https://www.gov.br/inpe/pt-br)(
Inpe)_**
