# Mudanças climáticas podem agravar quadro de doenças como dengue e zika

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- Published: 2023-12-17T11:48:08-03:00
- Author: Redação

Os riscos apresentados pelas mudanças climáticas no Brasil podem levar à proliferação
de vetores, como o mosquito Aedes aegypti e, em consequência, ao agravamento de 
arboviroses, como dengue, zika e chikungunya. O alerta é de levantamento na área
da saúde feito pela plataforma AdaptaBrasil, vinculada ao Ministério da Ciência,
Tecnologia e Inovação (MCTI), em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
As projeções indicam também expansão da malária, leishmaniose tegumentar americana
e leishmaniose visceral.

O trabalho levou em conta as temperaturas máxima e mínima, a umidade relativa do
ar e a precipitação acumulada para associar a ocorrência do vetor, que são os mosquitos
transmissores das diferentes doenças em análise. A AdaptaBrasil avalia também a 
vulnerabilidade e a exposição da população a esses vetores.

“Uma temperatura maior, com uma precipitação maior, pode levar a uma maior proliferação
de diferentes mosquitos, insetos que são transmissores dessas doenças, conhecidas
como arboviroses”, explicou à [Agência Brasil](https://agenciabrasil.ebc.com.br/ultimas)
o coordenador científico da plataforma, Jean Ometto. “Normalmente, a gente tem ocorrência
maior de dengue e chikungunya no verão”, observou.

Outro elemento analisado na plataforma é o quanto a população está exposta e o quão
vulnerável ela é à ocorrência dessas doenças. “A gente percebe que, em determinadas
regiões, pode haver um aumento da ocorrência dessas enfermidades e populações mais
vulneráveis e expostas ficam mais suscetíveis a adoecerem por essas diferentes doenças”,
disse Ometto, acrescentando que a identificação de que regiões poderão ser mais 
atingidas depende do tipo da doença.

Problema social
O coordenador científico da AdaptaBrasil esclareceu que, normalmente,
essas doenças acontecem quando há uma pessoa ou outro organismo animal que possa
estar infectado. Em geral, populações mais vulneráveis, que apresentem condições
de saúde e habitação mais precárias, tendem a ficar mais suscetíveis a uma ocorrência
maior da doença.

“Hoje já é assim. Mas a tendência é que isso se agrave. A gente vê hoje que muitas
dessas doenças não são exclusivas de populações menos favorecidas. Mas a ocorrência
maior é nessas populações. E isso tende a se agravar”, explicou.

Ometto alertou que se trata de um problema social “super dramático”, que precisa
ser resolvido.

De acordo com Ometto, condições melhores de vida, saúde e infraestrutura ajudam 
e contribuem bastante para que a população fique menos exposta a essas doenças, 
de modo a que possam ser atacadas de forma sistêmica, a partir do planejamento territorial,
de atendimento e de emergência em saúde.

O Brasil, segundo Ometto, tem uma estrutura de apoio à saúde muito importante, que
é o Sistema Único de Saúde (SUS), bastante singular no mundo. “Só que a gente não
está preparado para situações emergenciais. Quando ocorre um pico de doença, o país
não tem estrutura física que possa atender a todos que estão doentes. Os postos 
de atendimento ficam sobrecarregados. Isso tende a se agravar”.

Atuação ampliada
O coordenador da AdaptaBrasil defende que essa estrutura precisa
ser pensada dentro de um contexto de amplitude de atuação e de acesso, e melhorada
em termos de infraestrutura, capacidade de atendimento, qualificação das pessoas
que estão atendendo nesses locais, além de planos para que situações emergenciais
possam ser atendidas.

“É preciso olhar para o sistema de saúde de forma sistêmica, desde a população em
si até os sistemas de atendimento”.

Outra coisa importante para Ometto, é olhar de maneira preventiva todo o processo,
de modo a identificar quais são os elementos em que pode atuar, seja no controle
de proliferação dos insetos, seja na infraestrutura e qualidade das habitações, 
até a situação de atendimento às ocorrências.

“Esse olhar sistêmico para a saúde é superimportante. E o que vai acabar acontecendo
com as mudanças climáticas é o agravamento. A gente está caminhando para um outro
nível de impacto associado às mudanças do clima”, alertou.

O coordenador da Adapta Brasil lembra da falta de estrutura observada recentemente
durante a pandemia da covid-19. “Era algo que as pessoas diziam que podia acontecer
mas, quando aconteceu, não tinha infraestrutura, nem capacitação dos profissionais,
dos equipamentos. Essa analogia é muito importante e muito válida”, ponderou Ometto.

Ele chama a atenção que, durante a covid-19, as populações mais impactadas e que
mais sofreram foram as menos favorecidas de alguma forma, as mais carentes. “Estratos
da sociedade que são mais vulneráveis realmente pelas condições sociais e econômicas”.

O pesquisador informou que a plataforma está trabalhando, no momento, dados referentes
à dengue e à zika. Os resultados deverão ser divulgados no início de 2024. Já os
dados da chikungunya estão previstos para lançamento ao longo do próximo ano.

Impacto
Ometto explicou que a plataforma apresenta um risco de impacto. “Ela não
apresenta uma situação emergencial nem de ocorrência efetiva. Aponta as condições
de infraestrutura, sociais, econômicas e ambientais em determinado município em 
que, em um evento associado às mudanças climáticas, a ocorrência de determinada 
arbovirose possa ser maior ou não”.

A AdaptaBrasil pretende ser uma ferramenta para o planejamento territorial de ações
setoriais, como saúde, considerando a mudança climática como algo que já está afetando
a sociedade brasileira. A plataforma permite ver o risco de que isso possa acontecer.
Dentro dos elementos que compõem, na realidade, o risco de impacto, como vulnerabilidade
e exposição, o gestor municipal pode identificar os indicadores que levam a um potencial
agravamento da situação de ocorrência de determinada enfermidade. Também a sociedade
civil pode se basear nos dados da plataforma para tomar decisões sobre ações, ou
seja, tomar atitudes para reduzir o nível de risco.

A AdaptaBrasil trabalha junto com o MCTI e o Ministério do Meio Ambiente (MMA) para
que a plataforma seja uma das ferramentas de apoio ao Plano Nacional de Adaptação,
de planejamento de ações de adaptação, em decorrência das mudanças climáticas no
país.

Expansão
Jean Ometto esclareceu que, no momento, nesse trabalho feito em parceria
com a Fiocruz, o foco são as arboviroses. A ideia, porém, é ampliar a pesquisa para
ondas de calor, que afetam sistemas cardiovascular e respiratório. “Estamos entrando
esta semana em mais uma onda de calor e devemos passar 70 dias com temperatura acima
da média para o período e que pode afetar, sem dúvida, a saúde das pessoas”.

O tema será trabalhado ao longo de 2024, anunciou Ometto.

O objetivo é trazer informação científica mais atualizada sobre a temática. A plataforma
se baseia em informações científicas para que possa ter um lastro importante a fim
de que as decisões sejam tomadas com base na melhor ciência existente no país.

Jean Ometto é pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), onde
atua na Divisão de Impactos, Adaptações e Vulnerabilidades, que estuda a questão
das mudanças climáticas em diversos setores, e um dos maiores especialistas em impacto
e vulnerabilidade de adaptação atualmente no Brasil. Ele também é membro do Painel
Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) nessa temática.

[Ag. Brasil](https://agenciabrasil.ebc.com.br/ultimas)
