# Opinião: A régua emprestada

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- Published: 2026-09-16T18:58:53-03:00
- Author: Redação

> _**A gente se compara com todo mundo, usando uma régua que ninguém pediu, e depois
> reclama que a própria vida parece curta.**_

**Por: Enrico Pierro\***

Outro dia eu me peguei fazendo uma coisa ridícula. Eu estava no celular, tarde da
noite, comparando meus números de seguidores com os de um colunista quinze anos 
mais novo que eu. Quinze anos. O rapaz provavelmente estava aprendendo a andar quando
eu já pagava boleto, e mesmo assim lá estava eu, quarentão, contando os seguidores
dele como quem confere o troco do padeiro, desconfiado de que a vida tinha me passado
a perna em algum caixa.

Quando eu me dei conta do que estava fazendo, ri sozinho no escuro. Porque não era
sobre o rapaz, coitado, que nem sabe que existe um senhor no interior o auditando
de madrugada. Era sobre a régua. Essa régua invisível que eu carrego desde sempre
e que vive medindo a minha vida contra a vida dos outros, sem nunca me perguntar
se eu autorizo a medição.

E aí eu comecei a pensar de onde veio essa régua. Não fui eu que fabriquei, disso
eu tenho certeza, porque se fosse minha ela mediria coisas que eu valorizo de verdade:
quantas tardes de sofá com os cachorros, quantos jantares bons, quantos textos que
fizeram alguém chorar de reconhecimento. Mas não. A régua que eu carrego mede seguidor,
mede curtida, mede cargo, mede a idade em que cada conquista deveria ter acontecido.
Ela foi montada por comentário de parente, por capa de revista, por algoritmo. É
uma régua de origem coletiva, e eu nem lembro de ter assinado o recebimento.

O mais engraçado, se é que dá pra rir, é que todo mundo à minha volta carrega uma
igual. O colunista jovem que eu auditava provavelmente se compara com alguém maior
que ele, que por sua vez se compara com outro maior ainda, numa escadaria infinita
onde ninguém chega ao topo porque o topo é uma mentira de perspectiva. Estamos todos
medindo a própria vida com a fita métrica do vizinho e estranhando que o resultado
nunca bate.

Não vou mentir dizendo que joguei a régua fora, porque isso seria a versão instagramável
da história, e aqui a gente combinou de ser honesto. A régua continua comigo. Mas
agora, pelo menos, quando ela aparece medindo o que não devia, eu consigo perguntar:
de quem é essa marca? Quem decidiu que essa é a medida do suficiente? Na maioria
das vezes a resposta é: não fui eu. E só essa pergunta já encurta a régua uns bons
centímetros.

**_@enricopierroofc_**

**\*É escritor e colunista do Quarto Poder**

**_Nota do editor: As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente
a opinião de O Quarto Poder_**
