# Opinião: A vida em rascunho

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- Published: 2026-09-01T20:03:41-03:00
- Author: Redação

> Talvez a vida nunca chegue à versão final. Enquanto esperamos o momento certo,
> o tempo passa e aquilo que poderia ter sido vivido fica guardado como um rascunho
> que nunca ganhou coragem para existir.

**Por: Enrico Pierro\***

Eu estava procurando um documento qualquer no computador quando abri, sem querer,
uma pasta antiga chamada ideias. lá dentro, um cemitério organizado em ordem alfabética:
conto do ônibus AGORA VAI, começo bom não perder, ideia boa madrugada, este último
contendo uma única linha que diz “ele volta para buscar o relógio”, e eu juro que
não faço a menor ideia de quem é ele, que relógio é esse, nem por que em 2017 isso
me pareceu importante o suficiente para levantar da cama. fiquei um bom tempo ali,
rolando a lista, como quem visita parentes que não vê há anos e não reconhece mais.

São dezenas de rascunhos. textos com três parágrafos ótimos e nenhum quarto. contos
que param exatamente na hora em que eu precisaria decidir alguma coisa. e as versões,
meu deus, as versões: crônica v2 revisada FINAL definitiva convivendo na mesma pasta
com crônica v2 revisada FINAL definitiva MESMO. cada arquivo desses foi, no dia 
em que nasceu, uma promessa. eu fechava o documento com a sensação boa de quem começou
algo, e o rascunho ficava lá, esperando um retorno que a agenda sempre empurrou 
para frente.

O incômodo veio quando eu percebi que não faço isso só com texto. eu vivo em versão
rascunho. a conversa importante que eu vou ter quando a poeira baixar. o projeto
que eu vou tirar do papel quando sobrar um dinheiro. o hábito que começa segunda-
feira, essa segunda-feira mítica que funciona como lixeira de intenções. a versão
final de mim mesmo está sempre agendada para um futuro em que as condições vão colaborar:
mais tempo, mais calma, menos boleto. enquanto isso, eu me apresento ao mundo como
esboço, pedindo desculpas antecipadas, avisando que ainda não sou a edição revisada.

Só que as condições não colaboram nunca. essa é a notícia que ninguém me deu aos
vinte anos e que eu entrego a você de graça: a poeira não baixa, o tempo não sobra,
a segunda-feira chega cheia dos mesmos problemas da sexta. esperar a versão final
é um jeito elegante de não publicar nunca. e rascunho engavetado não toca ninguém.
aquele conto do relógio pode até ser ruim, mas na gaveta ele nem essa chance tem.
o texto imperfeito publicado conversa, erra, encontra um leitor. o perfeito inédito
só acumula poeira digital e culpa.

Então fica aqui o meu comunicado oficial: eu decidi publicar a vida como ela está.
com erro de digitação, com quarto parágrafo faltando, com versões conflitantes de
mim mesmo na mesma pasta. esta coluna que você acabou de ler, aliás, é exatamente
isso: um rascunho que criou coragem. se você encontrar erros, finja elegância. o
autor está em revisão permanente, e desconfia, cada vez com menos medo, de que todo
mundo está.

_@enricopierroofc_

**\*É escritor e colunista do Quarto Poder**

**_Nota do editor: As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente
a opinião de O Quarto Poder_**
