# Opinião: O que os quatro cachorros sabem que eu não sei

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- Published: 2026-09-13T10:49:54-03:00
- Author: Redação

> **_Talvez os quatro cachorros não saibam explicar o que é viver bem, mas parecem
> entender uma coisa que eu ainda estou aprendendo: o passado não precisa entrar
> pela porta junto com a gente._**

**Por: Enrico Pierro\***

Todo santo dia, na mesma hora, os quatro se organizam na porta para esperar a comida.
Não adianta eu estar atrasado, com a cabeça em outro lugar, discutindo comigo mesmo
algum problema que parece do tamanho do mundo. Eles estão ali, sentados, olhando
para a porta com uma expectativa tão inteira que chega a doer de tão simples. Nenhum
deles carrega a discussão de ontem. Nenhum deles antecipa a de amanhã. Existe só
a fome de agora, a porta de agora, a alegria de agora.

Eu invejo essa economia emocional deles, sinceramente. Eu levo a mesma mágoa por
semanas, remoendo ela em ângulos diferentes, cada um mais desgastante que o outro.
Eles brigam, rosnam feio um para o outro por causa de um brinquedo, e cinco minutos
depois estão deitados encostados, como se o rosnado tivesse acontecido numa vida
anterior. Não é que eles esqueçam por burrice. É que eles não carregam o passado
como peso, só como aprendizado rápido, e seguem.

Tem uma cena que se repete muito aqui em casa: eu chego cansado, de mau humor, arrastando
um dia ruim pela casa inteira, e algum deles vem esfregar a cabeça na minha perna,
sem nenhum motivo lógico, sem retribuição esperada, só porque sim. Não é estratégia,
não é cálculo. É presença pura, o tipo de coisa que eu, com toda a minha capacidade
de escrever sobre sentimento, ainda erro na hora de oferecer de graça.

Confesso que já tentei imitar. Já tentei chegar em casa e decidir, na marra, que
aquele dia ruim ia ficar do lado de fora do portão, do jeito que eles parecem fazer
com tanta naturalidade. Funciona umas vezes. Na maioria, eu carrego o dia inteiro
para dentro de casa, converso com ele até tarde, e só de madrugada, olhando para
algum deles roncando tranquilo aos meus pés, é que eu lembro que existe outro jeito
de viver um dia difícil.

Não sei se um dia eu vou aprender de vez o que eles sabem sem esforço nenhum. Mas
toda vez que um deles esquece uma briga em cinco minutos, ou espera a comida sem
nenhuma ansiedade sobre o futuro, eu anoto mentalmente que ali, naquele focinho 
descansando no meu colo, existe uma aula que eu ainda não terminei de fazer.

**_@enricopierroofc_**

**_\*É escritor e colunista do Quarto Poder_**

_Nota do editor: As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente 
a opinião de O Quarto Poder_
