# Para governo Bolsonaro, garimpeiros e pecuaristas são povos tradicionais

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- Published: 2021-12-17T13:07:32-03:00
- Author: Redação

O governo Bolsonaro quer incluir garimpeiros e pecuaristas na lista de povos tradicionais.
Essa pauta estava presente na 11ª reunião do Conselho Nacional dos Povos e Comunidades
Tradicionais (CNPCT), colegiado consultivo do Ministério da Mulher, da Família e
dos Direitos Humanos. Ficou decidido que no prazo de um ano um Grupo de Trabalho(
GT) os membros do conselho debaterão e, ao final, decidirão se os destruidores da
Amazônia e de outros biomas serão considerados “povos tradicionais”. A simples inclusão
desse assunto resultou numa chuva de críticas.

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CESAR-ARAUJO-22T-1024x683-1.jpg?w=735&ssl=1)

**[Garimpo do rio Juma entre Apuí e Novo Aripuanã, no Amazonas . Foto: Alberto César Araújo/Acervo Amazônia Real](https://amazoniareal.com.br/cnpct/)**

“Garimpeiros são como gafanhotos famintos, destroem tudo pela frente e em seguida
vão para outro lugar”, resumiu o sociólogo e professor da Universidade Federal do
Amazonas (Ufam) Luiz Antonio Nascimento. Os povos tradicionais são aqueles que vivem
na e da terra há séculos, como ribeirinhos, caiçaras, caboclos, indígenas e quilombolas.“
Estes usam as terras, os recursos naturais e o meio ambiente como um todo de forma
sustentável”, acrescenta o sociólogo, para quem o garimpo é por natureza degradador
e insustentável. “Não há um único lugar em que o garimpo deixou algo além de miséria,
doenças e degradação social e ambiental.”

O CNPCT foi criado pelo Decreto n 8.750 de 9 de maio de 2016 e que está presente
na estrutura da Secretaria Nacional de Políticas da Promoção da Igualdade Racial(
Seppir), do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, pasta hoje 
comandada pela ministra Damares Alves. O conselho tem atribuição de fortalecer e
garantir os direitos dos povos tradicionais, propondo conferências, coordenando,
acompanhando e monitorando a implementação e a regulamentação da Política Nacional
de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais. Se forem considerados
povos tradicionais, os pecuaristas e garimpeiros terão voz e poder de decisão dentro
desse órgão.

A solicitação foi feita diretamente pelos garimpeiros e pecuaristas, fundamentada
em pedidos de autodeterminação (eles se consideram “povos tradicionais”), à Seppir,
que encaminhou a demanda para o CNPCT. No dia 20 de outubro, o GT foi discutido 
e aprovado em reunião ordinária. Em 8 de dezembro, foram nomeados os membros que
comporão o grupo de trabalho.

O CNPCT divulgou uma nota explicando a situação. No documento, os conselheiros contam
que “se deparam” com o que classificaram como “uma divulgação errônea de proposta
de pauta que continham informações que ainda precisavam de aprimoramento prévio”,
antes de ser divulgada. O primeiro dia da reunião foi no dia 7 de dezembro.

A pauta da reunião é costurada entre os membros do CNPCT e a Seppir, órgão governamental.
No caso, o pedido específico para a inclusão dos garimpeiros e pecuaristas como 
povos tradicionais partiu da Secretaria do governo, segundo a nota. Os conselheiros
haviam pedido a correção, por e-mail, um dia antes da reunião, no dia 6 de dezembro,
e afirmam que nada foi feito, o que colaborou para “problemática criada por difusão
de informações errôneas e inverídicas da pauta publicizada”.

Ainda de acordo com a nota, no dia 8 de dezembro, a reunião tratou da criação do
GT para “discutir procedimento para reconhecimento de novos segmentos de Povos e
Comunidades Tradicionais – PCTs”. O documento narra que a sugestão da Seppir é que
houvesse votação sobre as identidades, mas o entendimento dos conselheiros era que
se ampliasse as discussões do autorreconhecimento a “partir de critérios e procedimentos
para que todos os grupos tenham segurança, inclusive jurídica para esse processo”.

Houve discussões acerca da composição do GT, e o governo expressou que esta deveria
ser paritária, embasado no decreto 9.759/2019. O conselho se posicionou ainda contra
a destruição de territórios, o que acontece por meio de projetos “desenvolvimentistas
muitos deles governamentais”, também contra mineração em territórios indígenas e
em unidades de conservação e “contra quaisquer atividades que ameacem destruir o
modo de vida e territórios tradicionais”.

DESCONEXÃO COM A REALIDADE

Agora o GT vai ouvir povos e comunidades tradicionais (PCTs), pesquisadores, antropólogos
e instituições. Esse grupo é composto por quatro integrantes da sociedade civil,
um do governo e convidados como MPF, Defensoria Pública da União e outros órgãos.
A decisão sobre a inclusão dos garimpeiros e pecuaristas será apresentada em reunião
do CNPCT em dezembro de 2022.

Para o professor da Ufam, esse gesto só pode ser entendido como “piada de mau gosto”.“
Esse governo Bolsonaro é louco e criminoso e está fazendo de tudo para destruir 
tudo, e em especial terras indígenas, quilombos e Unidades de Conservação. E tem
encontrado caixa de ressonância na mídia, quando ela não denuncia com dureza o que
está em curso”, afirma.

“É mais um absurdo dessa criatura. Não há como a gente entender de outra forma. 
É uma total desconexão com a realidade, querer colocar como PCTs categorias que 
historicamente perseguem, matam e oprimem essa população”, desabafa Angela Mendes,
filha do líder Chico Mendes. “É ultrajante, considerando que pecuaristas e garimpeiros,
e muito mais garimpeiros, não se enquadram no que determina a Política Nacional 
de Desenvolvimento de Povos e Comunidades Tradicionais. É só buscar informações”,
diz a tecnóloga em gestão ambiental.

O indigenista do Fórum da Amazônia Oriental (Faor) Marquinho Mota foi mais direto:“
Isso aí é uma grande merda! Desculpa a expressão. Como é que garimpeiros e pecuaristas
podem ser considerados povos tradicionais? É uma afronta a tudo que os povos tradicionais
conquistaram até hoje, porque garimpeiros e pecuaristas são pessoas, agrupamentos,
quadrilhas que atacam os povos tradicionais. Não têm como enquadrar esses caras 
como povos tradicionais. É um absurdo”, considerou.

O CNPCT é presidido por Carlos Alberto Pinto Santos Candidato, membro do Comissão
Nacional de Fortalecimento das Reservas Extrativistas e Povos e Comunidades Tradicionais(
Confrem). Ele informou que foi a “sociedade civil” no CNPCT que propôs a criação
do GT e que agora esse processo seguirá ritos e procedimentos para o reconhecimento
de novos grupos. “Isso nós conseguimos fazer, justamente para não ir direto analisar
o caso de um Grupo A ou Grupo B”, disse.

“Optamos por seguir os preceitos que defendemos: consulta prévia, ampla, livre e
informada, respeitando os direitos, a questão da identidade, da cultura, respeitando
justamente aquilo que levou a gente a ter um conselho pelo qual lutamos tanto. Não
vamos tratar de reconhecimento nenhum [no momento]”, adiantou Carlos Candidato.

NEUTRALIZAÇÃO DOS TRADICIONAIS

O historiador Juarez Silva Jr. vê a manobra para incluir garimpeiros e pecuaristas
no hall dos povos tradicionais como uma tentativa de desvirtuar um conceito e, assim,“
neutralizar” os verdadeiros povos e comunidades tradicionais nos seus direitos.

“A estratégia já foi utilizada há tempos aqui na região amazônica com a finalidade
de ‘infiltrar’ de forma metarracista a luta negra e indígena não apenas na região,
mas também em nível nacional como vimos no caso das cotas universitárias e demarcação
da Terra indígena Raposa Serra do Sol”, explica. Ele lembra que um conceito e uma
definição sobre os PCTs já são consagrados científica, social e politicamente, e
essa inclusão vai contra o que é consagrado.

“Trocando em miúdos, é a atualização perfeita dos ditados populares: ‘botar a raposa
tomando conta do galinheiro’ e ‘juntar alhos com bugalhos’. Isso será extremamente
prejudicial aos verdadeiros PCTs, além de abrir ainda mais ‘legalidades’ para a ‘
passagem da boiada’ antiambiental”, conclui.

A pesquisadora Elisa Wandelli faz um alerta ainda mais preocupante. “O pleito dos
garimpeiros e dos pecuaristas é o que eles têm o direito de realizar. Qualquer grupo
pode se considerar como tal, só que o conselho tem que avaliar para ver se aceita
eles como parte de povos tradicionais e consequentemente ter direito a voz, voto
e influência. E isso vai diminuir mais ainda a expressão, as demandas, os desejos
dos povos tradicionais”, alertou.

QUESTÃO POLÍTICA

No último mês, a crise no rio Madeira, quando centenas de balsas do garimpo ilegal
formaram uma vila flutuante nas proximidades do município de Autazes (a 112 quilômetros
de Manaus), causou danos para a imagem do Brasil perante a comunidade internacional.
E, por parte do governo Bolsonaro, nenhuma palavra de condenação ou desestímulo 
à atividade. Mas não é apenas junto ao governo federal que os garimpeiros encontram
força, como bem lembra o advogado da Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores
e Agricultoras do Estado do Maranhão (Fetaema).

“Há várias frentes formadas por parlamentares e prefeitos que vislumbram transformar
o garimpo ilegal em atividade lícita. Recentemente, uma comitiva de prefeitos da
região do Calha do Madeira (Amazonas) esteve em Brasília reivindicando apoio de 
deputados e senadores para que a atividade do garimpo seja ‘transformada’ em extrativismo
mineral familiar. Importante destacar que atividade garimpeira tem sido responsável
pela destruição de grandes extensões da Amazônia e resultado em violentos ataques
contra povos indígenas, comunidades quilombolas, ribeirinhos”, lembra Diogo Cabral.

No Amazonas, a defesa do garimpo também ganhou força na Assembleia Legislativa do
Estado (Aleam), quando muitos parlamentares se manifestaram a favor do “destravamento”
do setor, durante a crise no rio Madeira, quando a Polícia Federal, em operação,
ateou fogo em balsas que faziam extração clandestina de ouro.

OS GARIMPEIROS E PECUARISTAS

Fundador do Sindicato dos Garimpeiros do Estado de Roraima – o único no segmento
atuando no Brasil -, Crisnell Ramalho conta que não conhece a fundo a proposta colocada
em votação na reunião do CNPCT, mas faz questão de lembrar que a mineração é parte
da história do País. “Sabemos que o comércio e a indústria brasileira começaram 
a se desenvolver através dos garimpeiros, tenho livros contando essa história, inclusive
quando garimpeiro trabalhava no tempo da escravidão para o rei de Portugal”, diz
Ramalho.

O sindicalista que fundou o sindicato de Roraima conta sobre as dificuldades que
enfrenta com a própria categoria. “Os garimpeiros não querem sair do trabalho clandestino
para trabalhar legalmente. Eu tenho como fundamento o objetivo de transformar o 
trabalhador garimpeiro em micro, pequeno e até um grande empresário da mineração
para que ele recolha tributos, para questionar o governo federal e o Congresso a
liberar áreas para garimpeiro trabalhar de forma legal, com projetos ambientais.
Só que o garimpeiro não quer”, lamenta.

Já o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Amazonas (Faea), Muni 
Lourenço, disse não ser contra ou a favor da proposta de incluir pecuaristas como
povos tradicionais, desde que a inclusão na categoria, respeite os ditames legais.

A Amazônia Real tentou contato com o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos
Humanos, mas até o fechamento desta reportagem, o ministério não respondeu a solicitação.
Caso o ministério retorne, a reportagem será atualizada.

[Fonte: Amazônia Real](https://oquartopoder.com.br/para-governo-bolsonaro-garimpeiros-e-pecuaristas-sao-povos-tradicionais/ Amazônia Real)
