# Transmissão da sífilis em bebês pode ser resultado de pré-natal tardio

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- Published: 2020-11-09T10:54:41-03:00
- Author: Redação

O controle da sífilis em recém-nascidos de mães com diagnóstico da doença requer
adoção de estratégias complementares de saúde pública. Oferecer cuidado pré-natal
não é suficiente para evitar complicações clínicas nos recém-nascidos de mães com
a doença.

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**Evolução da doença pode atingir cérebro, meninges e medula espinhal**

O alerta é de pesquisadores de três instituições sul-mato-grossenses: Universidade
Federal da Grande Dourados (UFGD), Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS)
e Fundação Oswaldo Cruz, em estudo publicado na Revista do Instituto de Medicina
Tropical de São Paulo.

A pesquisa recebeu financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico (CNPq), da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento de Ensino, Ciência
e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul (Fundect) e da Coordenação de Aperfeiçoamento
de Pessoal de Nível Superior (Capes).

O estudo foi realizado no Hospital Universitário de Dourados (HU), em Mato Grosso
do Sul, instituição responsável por 63,7% dos nascimentos ocorridos na cidade de
Dourados, em 2017. Os pesquisadores acompanharam 63 mulheres em período de gestação
que receberam o diagnóstico de sífilis. Elas fazem parte de um total de 199 casos
confirmados de gestantes com sífilis atendidas pelo HU no período, sendo que 84%
desses casos são de sífilis congênita, situação em que a bactéria Treponema pallidum,
que causa a doença, passa de mãe para filho durante a gestação ou no momento do 
parto.

A partir do acompanhamento das 63 gestantes, os autores concluíram que o cuidado
pré-natal não é suficiente para prevenir a transmissão da bactéria aos recém-nascidos
e a evolução da infecção para a neurossífilis, complicações da doença quando a bactéria
atinge o cérebro, meninges e medula espinhal. Apesar de 95,2% das mães terem recebido
cuidados pré-natais, apenas 6 entre 10 iniciaram as consultas no primeiro trimestre
de gravidez. O pré-natal tardio foi um dos determinantes para mais da metade (50,8%)
dos nascidos terem necessitado de internação por complicações da sífilis.

Os resultados desse estudo indicam que o controle da neurossífilis continua sendo
um desafio não resolvido e pode trazer impactos econômicos para o Sistema Único 
de Saúde (SUS). “O diagnóstico tardio da sífilis materna e o elevado número de recém-
nascidos internados por complicações da doença aumentam os gastos do SUS. Para um
controle mais eficaz da sífilis em gestantes, o tratamento da doença deve ser priorizado
pelos gestores e profissionais de saúde”, ressalta a bióloga do Laboratório de Pesquisa
em Ciências da Saúde da Universidade Federal da Grande Dourados, Simone Simionatto,
autora principal da pesquisa.

**Obstáculos**
Além do diagnóstico tardio de sífilis em gestantes, outro gargalo
está no acompanhamento inadequado de parceiros sexuais, fator que favorece a transmissão
vertical do T. pallidum, da mãe para o bebê. Menos da metade dos parceiros das gestantes(
46,8%) recebeu o tratamento com penicilina. Entre as gestantes, quase 20% não receberam
doses do antibiótico. “Acreditamos que a dificuldade na adesão dos parceiros aos
cuidados do pré-natal está relacionada às atividades laborais e ao nível de relacionamento
afetivo com as gestantes”, ressalta Simone.

A baixa adesão do parceiro ao tratamento para sífilis, acredita a especialista, 
está atrelada à sua falta de conhecimento da doença, ao nível de instrução e ao 
não acompanhamento da parceira durante o pré-natal, deixando assim de receber informações
importantes para o entendimento da necessidade de controle da doença. “A sífilis
é uma doença com fases distintas. Algumas delas sem manifestação clínica, ou seja,
o parceiro apresenta lesões que regridem em algumas semanas sem o tratamento, o 
que leva a crer em uma possível cura. No entanto, o parceiro permanece com a infecção
e pode transmitir novamente a sífilis à gestante durante as relações sexuais desprotegidas”,
acrescenta Simone Simionatto.

A droga de primeira escolha para o tratamento em todas as fases da sífilis é a penicilina,
que pode ser usada na forma cristalina, procaína ou benzatina. Durante a gestação,
a penicilina é a primeira escolha, por ser capaz de atravessar a barreira transplacentária.“
A penicilina passou a ser o antimicrobiano de escolha para o tratamento, visto que
o T. pallidum é extremamente sensível a essa droga, não havendo relatos de resistência
bacteriana em mais de 60 anos de estudos. O tratamento para sífilis é disponibilizado
pelo SUS, no entanto nos últimos anos os serviços de saúde sofreram com o desabastecimento
mundial de penicilina”, lamenta a pesquisadora.

O estudo evidencia a relação entre vulnerabilidade social e comportamento sexual
de risco como determinantes para ocorrência de sífilis. Entre as 63 pacientes participantes
do estudo, mais da metade (55,6%) tiveram a primeira relação sexual abaixo dos 15
anos; 90,5% tiveram relações sexuais sem preservativos; 66,7% tinham menos de 30
anos; 63,5% não completaram o ensino fundamental; 82,5% se declararam não brancas;
66,7% são casadas; 65% estão desempregadas e 73% vivem com menos de um salário mínimo.

Apesar de os dados da pesquisa mostrarem que a sífilis atinge as camadas mais pobres,
ela tem distribuição ampla em toda a população. “No entanto, em grupos mais vulneráveis
como gestantes, indígenas, população privada de liberdade, mulheres profissionais
do sexo, homens que fazem sexo com homens, as taxas de prevalência e incidência 
são mais frequentes”, aponta Simone.

**Sífilis gestacional**
A Organização Mundial da Saúde estima mais de 11 milhões
de novos casos anuais de sífilis, sendo 90% deles em países em desenvolvimento, 
como o Brasil. A sífilis gestacional afeta aproximadamente 1,5 milhão de grávidas
por ano no mundo.

Uma meta-análise mostra que uma entre quatro gestantes infectadas com T. pallidum
sofrem aborto ou têm bebês natimortos; 12,3% dos bebês morrem logo após o nascimento
e 12,1% nascem prematuros ou com baixo peso. A meningite causada pela infecção bacteriana
em bebês pode causar hidrocefalia, isquemia e infarto do cérebro ou medula espinhal.
As manifestações da neurossífilis também podem comprometer o desenvolvimento neuropsicomotor
do recém-nascido e, nos casos mais graves, levar à morte.

O diagnóstico precoce de sífilis durante a gestação reduz o tempo de exposição do
feto ao T. pallidum, diminuindo as chances de transmissão e complicações na gestação.
Melhorar a qualidade dos serviços de saúde, afirma Simone Simionatto, é importante
para o controle efetivo da doença, reduzindo os gastos com o tratamento e a internação
dos bebês. Segundo ela, estudos como esse podem auxiliar na implementação de estratégias
de saúde pública para o controle mais efetivo da enfermidade.

“Uma vez que vários fatores foram associados ao T. pallidum entre as mulheres, provavelmente
várias abordagens poderiam contribuir para reduzir as taxas dessa infecção. Uma 
alternativa para reduzir a prevalência da sífilis seria concentrar esforços no acompanhamento
dos casos positivos e na eficácia do tratamento, bem como do tratamento dos parceiros
sexuais. Assim, os programas de rastreamento podem ser uma abordagem preventiva 
essencial. Estudos têm demonstrado que o rastreamento regular (a cada três ou seis
meses) em grupos de alto risco para adquirir IST pode contribuir para a redução 
da incidência de sífilis”, sugere Simone.

**Prevenção**
O uso correto e regular da camisinha feminina e/ou masculina continua
sendo um dos principais aliados na prevenção da doença. Até o momento não há relatos
de doenças ou condições genéticas que predisponham o indivíduo ao desenvolvimento
da sífilis. “O que se tem relato são os casos de coinfecção de HIV e sífilis, onde
os pacientes com HIV podem evoluir para as formas graves da doença. As altas taxas
de sífilis podem ser um risco potencial para a propagação de outras ISTs (Infecções
Sexualmente Transmissíveis), incluindo HIV, durante o sexo desprotegido”, orientou
a pesquisadora.

A chance de transmitir o HIV aumenta cinco vezes se um dos parceiros tiver uma IST
ulcerativa como a sífilis, por exemplo. As lesões de sífilis contêm uma abundância
de linfócitos, o que torna a infiltração do HIV mais recorrente. “Além disso, a 
imunossupressão causada pelo HIV pode favorecer a evasão dos mecanismos de defesa
do hospedeiro pelo T. pallidum”, conclui Simone.

Fonte: Agência Brasil
