Delegada presa por suspeita de elo com o PCC atuou como advogada em crimes graves no Pará

Antes de ser presa sob suspeita de ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC), a delegada Layla Lima Ayub construiu atuação ativa como advogada criminal no Pará e chegou a mover ações administrativas contra o Estado do Espírito Santo enquanto ainda integrava a Polícia Militar. Registros oficiais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e do Judiciário revelam que ela atuou em processos envolvendo tráfico de drogas, homicídio qualificado e associação criminosa.

Layla foi presa na manhã desta sexta-feira (16), em São Paulo, durante a Operação Serpens, deflagrada pela Corregedoria-Geral da Polícia Civil paulista e pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), em ação conjunta com o Gaeco do Pará. A investigação apura a suposta atuação da delegada, recém-empossada, em favor do PCC, incluindo vínculos pessoais e profissionais com integrantes da facção.

Segundo a apuração, Layla deve ser indiciada por exercício irregular da profissão, organização criminosa, falsidade ideológica e associação para o tráfico. No momento da prisão, ela não teria negado a ligação com o grupo criminoso e admitiu que seu companheiro, Jardel Neto Pereira da Cruz, conhecido como “Dedel”, é integrante do PCC. O Estadão informou que tenta contato com a defesa da delegada, que ainda não se manifestou.

Dados da OAB indicam que Layla mantinha inscrição principal no Pará, vinculada à subseção de Marabá, onde exercia regularmente a advocacia. Ela chegou a abrir inscrição suplementar no Espírito Santo, utilizada quando o profissional atua de forma habitual em outro Estado, mas esse registro aparece atualmente como cancelado. A inscrição principal no Pará segue ativa.

Consultas ao sistema do Tribunal de Justiça do Pará mostram que o nome de Layla figura em diversos processos em tramitação na primeira e na segunda instâncias. Entre os casos estão ações penais por tráfico de drogas, associação para o tráfico, homicídio qualificado, ameaça, furto qualificado e crimes previstos no Sistema Nacional de Armas, além de autos de prisão em flagrante, inquéritos policiais e pedidos de habeas corpus relacionados a prisões preventivas.

Em um dos processos, que tramita na Vara Única de Anapu, Layla atuou como advogada de defesa em uma ação penal por homicídio qualificado. Conforme registro judicial, ela representou o réu em audiência de instrução realizada em dezembro de 2025, participou da oitiva de testemunhas e apresentou pedido de revogação da prisão preventiva, cuja análise foi adiada para manifestação do Ministério Público.

De acordo com o promotor Carlos Gaya, a delegada teria passado a atuar diretamente em favor de lideranças do PCC no Pará. Segundo ele, Layla foi “cooptada no curso do contato com essas lideranças dentro dos presídios”, durante o exercício da advocacia criminal, que teria se intensificado após o início de um relacionamento amoroso com um integrante da facção.

Outro caso citado pelas investigações envolve a atuação de Layla na Vara Única de Itupiranga, onde ela representou dois presos em auto de prisão em flagrante por tráfico de drogas. Durante audiência de custódia realizada em junho de 2025, a então advogada pediu a liberdade provisória com medidas cautelares, que foi concedida pelo juiz. O processo segue em fase de investigação, com novas diligências determinadas.

Ainda segundo o Ministério Público, chamou atenção o número elevado de visitas realizadas por Layla a presos, inclusive em situações nas quais ela não possuía procuração formal para atuar na defesa.

No Espírito Santo, registros do Tribunal de Justiça apontam que Layla ajuizou ao menos três ações administrativas. Em 2017, ingressou com pedido contra o Estado para cobrança de auxílio-alimentação, na condição de policial militar. A ação foi julgada improcedente em 2021 e arquivada definitivamente, sem repercussão criminal.

Em 2019, ela moveu nova ação administrativa buscando indenização por acidente de serviço supostamente sofrido durante atuação na Polícia Militar. O pedido foi negado em 2022, sob o entendimento de que a administração pública seguiu corretamente a legislação estadual no cálculo do benefício.

No mesmo período, Layla também figurou como indiciada em um Inquérito Policial Militar instaurado pela Corregedoria da PM. O procedimento foi analisado pelo Ministério Público Militar e arquivado definitivamente pela Justiça Militar em 2021, sem oferecimento de denúncia.

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