O concurso para professor do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) terminou deixando um rastro de indignação entre candidatos, não pelo rigor da seleção em si, mas pelas condições em que o processo foi conduzido e pela forma como o resultado foi apresentado, levantando questionamentos legítimos sobre respeito, transparência e cuidado institucional.
Quem acompanhou ou participou do concurso saiu com a sensação de que algo essencial se perdeu ao longo do caminho: o respeito ao candidato. Em meio a um processo exaustivo, marcado por quase 24 horas ininterruptas de provas e avaliações, o desgaste físico e emocional foi evidente, não apenas entre os concorrentes, mas também entre os próprios membros da banca examinadora, que chegaram a permanecer na instituição desde as primeiras horas da manhã de segunda-feira (26) até a madrugada do dia seguinte.
O resultado, divulgado após esse cenário de exaustão coletiva, não ajudou a apaziguar os ânimos. Dos candidatos avaliados, apenas 16 foram aprovados. Quatro alcançaram nota 9,33; três obtiveram 8,17; cinco ficaram com 7,83; e quatro com 7,17. Entre os 39 reprovados, chama atenção a concentração de notas idênticas: 22 candidatos receberam exatamente 3,92, enquanto outros tiveram notas igualmente repetidas, como 5,17 entre 12 concorrentes. Ao todo, 47 candidatos sequer compareceram à prova.
A repetição de notas, tanto entre aprovados quanto reprovados, causou estranheza e virou o principal ponto de contestação. Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que, embora seja natural haver convergência de avaliações, o esperado em processos acadêmicos é que as correções sejam feitas de forma autônoma pelos avaliadores, resultando em médias que reflitam nuances e diferenças de leitura. A atribuição idêntica de notas para um número elevado de candidatos foge desse padrão e, no mínimo, merece um esclarecimento devido.

A insatisfação ganhou força especialmente por causa da etapa da prova escrita. Houve casos de candidatos que realizaram leitura pública de seus textos a partir da meia-noite, após uma jornada desgastante, e receberam notas muito baixas, como 3,92. Para quem se preparou durante meses, muitos já profissionais atuantes da comunicação em Santarém, a percepção é de que a correção teria sido superficial, incapaz de refletir o esforço e a qualidade do trabalho apresentado.
Desde a divulgação do resultado, recursos começaram a ser protocolados. Os candidatos alegam possíveis violações ao edital e pedem, sobretudo, a reavaliação das provas, considerando as condições extremas às quais todos foram submetidos. Não se trata de atacar a banca julgadora, mas de reconhecer que o cansaço extremo, visível em candidatos e avaliadores, pode comprometer a qualidade de qualquer processo avaliativo.
O curso de Jornalismo da Ufopa tem peso histórico para Santarém e para o oeste do Pará. É um espaço que formará futuros profissionais para a comunicação regional, em um contexto onde novos talentos surgem e buscam qualificação acadêmica de alto nível. Justamente por isso, o processo seletivo para docentes precisa ser não apenas rigoroso, mas também humano, transparente e tecnicamente irretocável.
Mais do que discutir notas, o debate que se impõe é sobre procedimentos. Garantir o direito ao recurso, ou sugerir à banca julgadora a revisão cuidadosa das provas e à ampla explicação dos critérios adotados não enfraquece o concurso, ao contrário, fortalece a instituição. O respeito aos candidatos, especialmente àqueles que dedicaram anos à profissão e à preparação acadêmica, é parte indissociável da missão de uma universidade pública.
O episódio deixa uma lição clara: excelência acadêmica não se constrói apenas com seletividade, mas também com processos que respeitem pessoas, trajetórias e o próprio valor da educação.

