Movimentos sociais realizam Barqueata de Resistência em Alter do Chão contra privatização do Rio Tapajós

Desde o amanhecer do dia 22 de janeiro, o Rio Tapajós deixou de ser apenas paisagem para virar trincheira. Movimentos sociais, organizações indígenas e coletivos populares ocupam o terminal portuário da multinacional Cargill, em Santarém, no oeste do Pará, em um protesto que denuncia o que chamam de avanço silencioso da privatização do rio e sua conversão em um corredor industrial a serviço exclusivo da soja. No centro da revolta está o Decreto nº 12.600/2025 e o edital de dragagem do Tapajós, vistos pelas comunidades como mais um passo na transformação da Amazônia em rota de exportação, à revelia de quem vive às suas margens.

O decreto inclui o Tapajós no Programa Nacional de Desestatização e o insere no chamado Arco Norte, um corredor logístico que conecta os rios Madeira, Tocantins e Tapajós para acelerar o escoamento de commodities agrícolas. Para quem mora na região, porém, o discurso do desenvolvimento esconde um custo alto: a destruição de modos de vida tradicionais, o agravamento de problemas de saúde pública e impactos ambientais profundos e duradouros. O rio, dizem os manifestantes, deixa de ser fonte de vida para se tornar canal de passagem.

A mobilização ganha novos contornos nesta quarta-feira (28), quando Alter do Chão se transforma em palco de resistência. Reconhecido internacionalmente como o “Caribe Amazônico”, o distrito depende diretamente do equilíbrio natural do Tapajós para manter suas praias de areia branca, o turismo comunitário e a economia local. A chamada Barqueata de Resistência percorre as águas como um ato simbólico e político, alertando para os riscos da dragagem contínua, que pode provocar erosão das margens, alterar as correntes do rio e fazer desaparecer praias inteiras, ameaçando o sustento de milhares de famílias.

Ao longo da manhã, a orla se enche de gente em mutirão. A limpeza das praias se mistura à colocação de faixas, enquanto um grande ritual reúne moradores e lideranças no Centro de Atendimento ao Turista, antes da saída das embarcações. O gesto é simples e potente: cuidar do território enquanto se denuncia o que pode destruí-lo.

Em Santarém, a ocupação do porto da Cargill segue como símbolo de enfrentamento a um modelo de desenvolvimento imposto à Amazônia. Construído sobre um antigo cemitério indígena ancestral, o terminal é visto pelos movimentos como a materialização da monocultura da soja, do desmatamento no planalto santareno e da concentração de riqueza que exclui populações tradicionais. As organizações denunciam ainda a falta de licenciamento ambiental adequado e a ausência da Consulta Prévia, Livre e Informada às comunidades afetadas, direito garantido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho.

Os alertas não são apenas sociais ou culturais, mas também científicos. A dragagem permanente do leito do rio, o derrocamento de pedrais e a ressuspensão de sedimentos contaminados podem liberar mercúrio e agrotóxicos acumulados ao longo de décadas. Isso significa água e peixes contaminados, insegurança alimentar e o agravamento de doenças neurológicas, como a Doença de Minamata. Pesquisas recentes já indicam índices alarmantes de contaminação por mercúrio em municípios da bacia do Tapajós, atingindo tanto populações ribeirinhas quanto urbanas.

Entre Santarém e Alter do Chão, a luta se consolida como uma frente ampla. Povos indígenas, comunidades ribeirinhas, juventudes, trabalhadores urbanos e setores do turismo se unem em defesa do rio. O conflito expõe dois projetos em disputa: de um lado, o que transforma rios em estradas para commodities; de outro, o que insiste em manter a Amazônia viva, com seus territórios, culturas e direitos.

No coro que ecoa das margens e das embarcações, a mensagem é direta e sem negociação: o Tapajós não está à venda. Defender o rio é defender a vida.

Foto: Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (CITA)

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