Um levantamento da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), feito a pedido do Ministério Público Federal (MPF), revela que a operadora Hapvida foi alvo de 4.660 reclamações por negativa ou demora no atendimento a crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) ao longo de 40 meses, entre 2022 e 2025.
A informação foi obtida pelo site Metrópoles e reúne dados de beneficiários menores de 18 anos que recorreram à ANS após enfrentarem dificuldades para conseguir cobertura assistencial junto ao plano de saúde. A chamada “demanda de cobertura” é um mecanismo acionado pelo consumidor quando há recusa ou atraso na autorização de procedimentos previstos em contrato.
De acordo com o levantamento, das 4.660 demandas registradas contra a Hapvida envolvendo pacientes com TEA, 2.221 foram encerradas por ausência de retorno do reclamante, enquanto 768 casos — cerca de 17% — terminaram com a efetiva prestação do serviço após a intervenção da agência reguladora. No período analisado, a ANS aplicou 155 multas pecuniárias à operadora.
Os dados chamam atenção também pelo volume geral de reclamações. Em apenas um mês, foram contabilizadas 1.689 demandas de atendimento feitas por clientes da Hapvida de todos os perfis junto à ANS, o que reforça o histórico de conflitos entre usuários e a operadora.

A apuração teve origem em um inquérito civil público instaurado em Pernambuco, que investigava possível irregularidade no atendimento a uma criança com autismo. Durante a apuração, o MPF identificou a existência de milhares de queixas semelhantes envolvendo pacientes com TEA em todo o país.
Em novembro de 2025, o inquérito foi arquivado por decisão do subprocurador-geral da República Luiz Augusto Santos Lima. Segundo ele, o tema já vinha sendo tratado em um procedimento administrativo nacional que apura o cancelamento ou a suspensão unilateral de atendimentos a pessoas com TEA por parte da Hapvida. Além disso, tanto o MPF quanto a ANS não obtiveram retorno do denunciante inicial para confirmar a persistência do problema.
Procurada, a Hapvida afirmou ao Metrópoles que apresentou comprovação do atendimento do paciente que motivou a investigação. Em nota, a operadora negou qualquer prática sistemática de suspensão de atendimentos a pessoas com TEA e declarou que mantém a assistência de forma contínua, em conformidade com as normas da ANS e as diretrizes técnicas vigentes.
A empresa também contestou a interpretação dos números, afirmando que os 4.660 registros não representam, necessariamente, interrupção ou suspensão de atendimentos, mas sim o total de demandas administrativas protocoladas na ANS em âmbito nacional no período analisado. Segundo a Hapvida, a maioria dessas demandas foi solucionada ainda na fase de mediação administrativa, seja com a prestação do serviço, seja pela falta de retorno do próprio reclamante.

