O episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida mostra como religião, política e desinformação podem formar uma mistura perigosa
Há momentos em que a política deixa de disputar apenas votos e passa a disputar símbolos, crenças e sentimentos. O episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida e o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) é um desses casos. Em poucas horas, uma informação falsa sobre a retirada do título de Padroeira do Brasil ganhou as redes sociais, alcançou grupos religiosos e transformou uma devoção centenária em combustível para a guerra política das eleições de 2026.
A informação era falsa. Não existe proposta de Flávio Bolsonaro para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. O próprio candidato negou a intenção.
O projeto que acabou associado ao episódio é de 2007, foi apresentado pelo então deputado federal Victório Galli e arquivado pela Câmara em 2008, sem relação com a atual candidatura de Flávio.
O episódio, entretanto, não pode ser resumido apenas a mais uma fake news eleitoral. Ele revela algo maior: a crescente disputa pela influência religiosa no Brasil e a maneira como símbolos da fé passaram a ser utilizados como instrumentos de mobilização política.
E aqui é preciso separar as coisas.
Criticar determinada prática religiosa é uma coisa. Transformar a fé do outro em motivo de hostilidade é outra. Católicos e evangélicos possuem diferenças teológicas profundas, inclusive sobre o papel de Maria, a veneração dos santos e o uso de imagens. Essas diferenças fazem parte da liberdade religiosa e não deveriam ser transformadas automaticamente em conflito político.
Nossa Senhora Aparecida não é apenas uma imagem para milhões de brasileiros. Para os católicos, ela representa Maria, mãe de Jesus, e está no centro de uma das maiores manifestações de fé popular do país.
A história da devoção começou em 1717, quando os pescadores João Alves, Felipe Pedroso e Domingos Garcia encontraram no rio Paraíba do Sul uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, primeiro o corpo e depois a cabeça. Segundo a tradição católica, depois do encontro da imagem veio uma pesca abundante. A devoção cresceu ao longo dos séculos até Nossa Senhora Aparecida se tornar Padroeira do Brasil.
Para quem professa essa fé, portanto, falar da santa não significa simplesmente falar de uma estátua. Significa falar de identidade, memória, família, tradição e espiritualidade.
É justamente por isso que o episódio ganhou tanta repercussão.
O Brasil mudou — e a religião também
O Brasil continua sendo majoritariamente católico, mas o país mudou profundamente nas últimas décadas.
Segundo o Censo 2022 do IBGE, os católicos representavam 56,7% da população de 10 anos ou mais, contra 65% em 2010. No mesmo período, os evangélicos passaram de 21,7% para 26,9%. O catolicismo continua majoritário, mas sua participação relativa diminuiu, enquanto o segmento evangélico avançou.
Outro dado ajuda a compreender a dimensão dessa transformação. Estudo do Ipea baseado em registros da Rais contabilizou, em 2021, 124.529 estabelecimentos religiosos no país. Desse total, 52% eram ligados a denominações evangélicas pentecostais ou neopentecostais, 19% a evangélicas tradicionais e 11% a estabelecimentos católicos. Esses números medem estabelecimentos, e não quantidade de fiéis, mas ajudam a dimensionar a capilaridade institucional das diferentes tradições religiosas.
A transformação religiosa brasileira tem consequências políticas. Igrejas estão presentes nos bairros, nas periferias, nas redes sociais, em projetos de assistência, na formação de lideranças e, cada vez mais, na política institucional.
Mas há uma ressalva fundamental: ser católico ou evangélico não determina automaticamente o voto de ninguém.
A religião pode influenciar valores, visões de mundo e prioridades, mas o eleitor continua sendo um indivíduo com múltiplas referências. Há católicos progressistas e conservadores. Há evangélicos com diferentes posições políticas. Há pessoas religiosas que não votam de acordo com as orientações de suas igrejas. E há eleitores sem religião que também participam intensamente do debate político.
A fé não deveria ser curral eleitoral
Talvez uma das questões mais importantes desse episódio esteja justamente aí.
Nenhuma igreja deveria ser tratada como curral eleitoral. Nenhum candidato deveria presumir que uma determinada denominação religiosa lhe pertence. E nenhum eleitor deveria ser reduzido à sua religião.
O próprio tamanho do eleitorado brasileiro reforça a importância dessa autonomia. Nas eleições de 2026, o Brasil tem mais de 158 milhões de pessoas aptas a votar. As mulheres representam 52,84% desse eleitorado, enquanto os homens correspondem a pouco menos de 47%.
São milhões de pessoas com histórias, crenças, necessidades e opiniões diferentes.
Por isso, transformar uma santa em arma eleitoral ou transformar evangélicos em inimigos políticos é empobrecer o debate público.
A democracia não exige que católicos e evangélicos pensem da mesma maneira. Exige que consigam conviver com suas diferenças.
Uma guerra que não deveria existir
É preciso também evitar generalizações.
Não são “os evangélicos” que atacam Nossa Senhora. Assim como não são “os católicos” que tentam impor sua devoção aos demais. Há milhões de brasileiros de ambas as tradições que convivem pacificamente, frequentam os mesmos espaços, trabalham juntos, formam famílias e compartilham preocupações muito mais concretas do que as disputas travadas nas redes sociais.
O problema aparece quando lideranças políticas ou grupos organizados transformam diferenças religiosas em ferramentas de mobilização.
Foi isso que o episódio da Padroeira demonstrou.
Uma informação falsa foi capaz de tocar em uma das áreas mais sensíveis da identidade de milhões de brasileiros: a fé. A narrativa se espalhou porque encontrou terreno fértil em um ambiente eleitoral polarizado, no qual qualquer ameaça imaginária ao símbolo religioso do outro pode produzir indignação imediata.
Nossa Senhora não precisa de candidato
Nossa Senhora Aparecida não precisa de candidato para existir. Também não precisa de partido, campanha eleitoral ou disputa ideológica para continuar sendo um dos maiores símbolos religiosos e culturais do Brasil.
Do mesmo modo, os evangélicos não precisam ser apresentados como inimigos dos católicos para que alguém defenda sua própria fé.
O que está em jogo é algo maior: a capacidade de uma sociedade democrática conviver com diferenças sem transformar o diferente em ameaça.
A política brasileira já é suficientemente dividida.
Não precisamos transformar também a fé em trincheira.
O eleitor pode ser católico, evangélico, espírita, umbandista, ateu ou simplesmente alguém que não deseja seguir nenhuma religião. Pode rezar diante de uma imagem ou não enxergar nela qualquer significado. Pode amar Nossa Senhora Aparecida ou não compartilhar dessa devoção.
Tudo isso cabe em uma democracia.
O que não deveria caber é a mentira deliberadamente transformada em verdade para provocar medo, ódio ou rejeição contra quem pensa diferente.
Porque, quando uma eleição chega ao ponto de usar a fé como arma, já não estamos discutindo apenas quem deve governar o país.
Estamos discutindo que tipo de sociedade queremos ser.

