Candidatos com estruturas políticas robustas, campanhas milionárias e forte exposição pública amargaram votações abaixo do esperado em Santarém
A eleição de 4 de outubro deixou um recado incômodo para quem apostou alto em estrutura política, poder econômico e exposição de campanha, além de desrespeito à lei eleitoral: em Santarém, no oeste do Pará, dinheiro e máquina pública não foram suficientes para garantir votos. Alguns dos candidatos que chegaram à disputa cercados de recursos, aliados e ampla visibilidade terminaram a eleição com um desempenho surpreendentemente modesto justamente no município onde deveriam ter suas maiores demonstrações de força.
Os números revelam um contraste que merece atenção. Candidatos que conquistaram dezenas de milhares de votos em todo o Pará tiveram dificuldades para transformar sua estrutura política em votação expressiva em Santarém. Em alguns casos, a diferença entre o desempenho estadual e a votação no próprio domicílio eleitoral foi significativa.
Na disputa para deputado federal, por exemplo, Henderson Pinto, que buscava a reeleição, alcançou 98.847 votos em todo o Pará. Em Santarém, entretanto, foram 39.369 votos. Embora tenha obtido uma votação estadual expressiva, não conseguiu renovar o mandato.
Outro nome que surpreendeu pelo desempenho estadual foi Adriana Almeida, com 88.147 votos. Em Santarém, foram 37.610 votos. O resultado mostra que, apesar da votação expressiva, a matemática eleitoral, a composição das chapas e o desejo de renovação acabaram pesando contra a candidatura. Não adiantou voar tanto de helicóptero nessa campanha.
Já Chapadinha, ex-deputado federal, não conseguiu repetir o desempenho que o levou anteriormente à Câmara dos Deputados. Terminou a eleição com apenas 14.180 votos no estado e 4.119 em Santarém.
O contraste fica ainda mais evidente quando se observa outros candidatos. O deputado federal reeleito Airton Faleiro, que alcançou 90.181 votos em todo o Pará, obteve 8.051 votos em Santarém. Já Biga, outro nome da disputa, chegou a 9.010 votos no município.
Na Alepa, antigos nomes também sentiram o peso das urnas
Na disputa por uma vaga na Assembleia Legislativa do Pará, a eleição também produziu resultados que contrariaram expectativas.
O ex-prefeito de Santarém Nélio Aguiar terminou a disputa com 26.841 votos no município. A deputada reeleita Maria do Carmo recebeu 23.933 votos, enquanto João Pingarilho, deputado suplente que havia assumido o mandato e buscava a reeleição, obteve 19.506 votos.
Outro resultado de forte impacto foi o de Josué Paiva, deputado que não conseguiu renovar o mandato e recebeu apenas 3.891 votos em Santarém.
Os números expõem uma realidade que nem sempre aparece nas campanhas: ter estrutura, dinheiro, alianças e visibilidade não significa necessariamente ter o voto do eleitor.
JK do Povão desafia a lógica tradicional
Se de um lado nomes tradicionais enfrentaram dificuldades, de outro, JK do Povão saiu das urnas fortalecido.
O candidato recebeu 51.164 votos somente em Santarém, tornando-se o deputado mais votado do município. No Pará, alcançou 69.719 votos.
A diferença entre sua votação municipal e estadual chama atenção: aproximadamente três quartos dos seus votos vieram de Santarém. É um desempenho que demonstra a força de sua base eleitoral e a capacidade de transformar popularidade local em votação.
JK fez o dever de casa. Em seu principal reduto eleitoral, superou adversários com estruturas políticas mais tradicionais e consolidou-se como um dos principais fenômenos eleitorais do município.
O resultado não surgiu do nada. Na eleição municipal anterior, JK já havia demonstrado força nas urnas ao ultrapassar a marca de 85 mil votos na disputa pela Prefeitura de Santarém. Agora, sua votação para deputado reforça a percepção de que existe um eleitorado disposto a apostar em nomes identificados com a renovação política.
O recado das urnas
A eleição deixa uma mensagem clara para os grupos que apostam exclusivamente em poder econômico, estruturas partidárias e exposição de campanha: o eleitor não é patrimônio de ninguém.
A máquina pode produzir visibilidade. O dinheiro pode comprar espaço publicitário. Uma campanha pode ocupar ruas, redes sociais e meios de comunicação. Mas, no momento decisivo, é o eleitor quem aperta o botão e escolhe.
Em Santarém, os números sugerem que uma parcela importante do eleitorado está cobrando renovação e valorizando nomes que considera mais próximos da população.
A força demonstrada por JK do Povão coloca seu nome novamente no centro do tabuleiro político de Santarém. Depois de duas eleições com votações expressivas, sua eventual candidatura à Prefeitura em 2028 tende a ser um dos principais assuntos da política local nos próximos dias.
Se mantiver a atual trajetória e conseguir ampliar sua base para além do eleitorado que já o acompanha, JK chegará a 2028 como um dos nomes mais competitivos da disputa pela Prefeitura da Pérola do Tapajós.
No fim das contas, a eleição mostrou uma regra antiga, mas que alguns grupos parecem insistir em esquecer: dinheiro pode fazer barulho, máquina pode produzir propaganda e poder pode abrir portas. Mas quem decide o resultado é o voto do povo.

