Opinião: o sentido criação da morte

Por: Dom Irineu Roman*

A comemoração de todos os fiéis falecidos é ocasião para recordar aqueles que já passaram por este mundo, para agradecer o bem que puderam fazer, o amor que conseguiram espalhar. Este dia de Finados é também uma oportunidade de refletir sobre a própria morte, para direcionar a própria vida na perspectiva de Jesus e da Salvação eterna.

A grande verdade do dia de Finados é que Deus nos ama infinitamente e quer salvar a todos, custe o que custar. Deus quer nos salvar de uma vida sem sentido, que se perde no nada; salvar para a Vida Eterna; salvar pela fé nele mesmo, o Filho de Deus, aderindo a suas Palavras, assimilando sua Vida, doada como alimento para a vida do mundo.

Outro ponto a considerar hoje, é que devemos pensar na morte terrena. A vida continua, plenificada em Deus, que nos ressuscita por sua graça. Pois é de graça que Deus nos dá a Vida Eterna. Pensar na morte é pensar no amor que se doa, o amor que dá sentido à vida; o amor que revela qual é a nossa fé, nossa adesão a Jesus; o amor que somos chamados a viver hoje, porque hoje pode ser, de fato, nosso último dia.

A fé na eternidade e a certeza da morte terrena, nos levam a relativizar o que aqui deixaremos, para dar a devida importância do que levaremos para junto de Deus. Na celebração da Missa nós sempre rezamos uma oração pelos falecidos: “Lembrai-vos, ó Pai de vosso filho(a), que chamastes deste mundo à Vossa presença. Concedei-lhe que, tendo participado da morte de Cristo pelo Batismo, participe igualmente da sua Ressurreição” (cf. Missal Romano).

Esta verdade – a de podermos interceder pelos que nos precederam, admitida desde sempre pelo povo cristão, foi declarada solenemente como Verdade de Fé. Nós, enquanto participamos de alguma celebração ou visitamos o cemitério, podemos recordar nossos entes queridos, que continuam em nossa memória, unidos a nós, por fortes vínculos.

Vejamos hoje como é a nossa oração por eles! Não nos esqueçamos de que se trata de uma grande obra de Misericórdia, rezar pelos falecidos. “Ó Deus! Tu és o meu Deus, eu te busco desde o amanhecer; a minha alma tem sede de Ti, a minha carne anseia junto de Ti, como a terra árida e seca, sem água” (Sl 63,1). “A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando irei e contemplarei a face de Deus?” (Sl 41/42).

Esta necessidade e esta ânsia reveladas pelo autor sagrado podem ser aplicadas às almas de nossos irmãos falecidos. São Francisco de Assis, encarava a morte como irmã, como amiga. O Santo enxergava a morte como a chave da felicidade plena. O livro de Jó mostra que o ser humano é um buscador de Deus.

No meio de muitas perguntas, dúvidas e crises, Deus permite que amadureçamos e compreendamos que Deus existe, e, é a fonte de toda a vida. Vejamos a experiência de Jó: “Eu sei que o meu Redentor está vivo, e que, por último, se levantará sobre o pó, … na minha carne verei a Deus. Eu mesmo o verei, meus olhos o contemplarão” (Jó 19,25 – 27).

O Encontro com Deus transforma o nosso jeito de pensar e agir. Ele é defensor da vida, o doador de todos os bens. Dele viemos, vivemos e para Ele iremos (Rm 11,36). Enquanto Jó confessa sua fé na futura visão de Deus, o Evangelho de João nos indica que já podemos “ver” a Deus na pessoa de Jesus Cristo, como “Caminho, Verdade e Vida (Jo 14,6) – “Ressurreição e Vida” (Jo 11, 25-26).

Há uma bela afirmação, frequentemente atribuída a Santa Terezinha do Menino Jesus, segundo a qual “não morre quem permanece na memória dos vivos”. Por isso, meus avós, meus pais e meus amigos ainda não morreram plenamente na minha memória afetiva.

Continuam vivos em minhas lembranças e saudades, em meus sentimentos e em minha história. O Apóstolo Paulo, em seus escritos, reflete profundamente o sentido da morte cristã: “Ó morte, onde está a tua vitória?” (cf. 1Cor 15,55).

Ele afirma também que a morte é: “o último inimigo a ser derrotado” (1Cor 15,26). Penso que a morte guarda segredos, que ainda não conseguimos decifrar plenamente; talvez seja ela que nos ajude a compreender o verdadeiro sentido da vida: a morte é o sentido da vida! A morte nos remete a Deus, ao encontro definitivo com Deus, onde haverá um juízo divino. (Mt. 25,31-46).

Aí seremos julgados, sobretudo pelas “Obras de Caridade”. A morte tem muito a nos ensinar. É uma mestra silenciosa, portadora de uma sabedoria imensa que nunca perdeu sua verdade. Ela nos ensina que somos passageiros, que o tempo é precioso, que o amor permanece e que nada nesta vida nos pertence para sempre.

Se os falecidos pudessem nos invejar, seria o tempo que ainda temos nesta vida para nos converter e santificar. Os que já morreram não tem mais esta possibilidade, mas nós ainda temos tempo, não sabemos até quando viveremos. Jesus nos alerta no Evangelho, que a morte virá como um ladrão, numa hora imprevista (1Ts 5,2 e 2Pe 3,10).

Enfim, a morte ainda tem muito a nos ensinar. É uma mestra silenciosa, portadora de uma sabedoria que nunca perdeu sua verdade. Ela nos ensina que somos transitórios, passageiros, que o tempo presente é precioso, e no final, o amor prevalecerá; e que nenhum bem material deste mundo, nos pertence para sempre.

No dia em que formos sepultados, somente nosso corpo será levado ao sepultamento. No céu, saberemos tudo. Ou, pelo menos, compreenderemos aquilo que hoje permanece envolto neste grande mistério de Deus.

A Celebração de Finados, é um dia que evoca saudade, esperança e compromisso. Saudades daqueles que partiram e marcaram de uma maneira ou de outra a nossa vida; esperança, porque nos foi revelado que a morte é passagem para a vida em plenitude.

Lembremos da semente, uma vez semeada na terra, desaparece, germina e gera uma nova planta, e produz frutos; (Jo,12,24); lembremos da erva seca, que regada pela chuva, volta a brotar e crescer (Jo 14,79). Hoje é dia de visitarmos os sepulcros de nossos falecidos e aí chorarmos. A visita, seja feita com fé, oração e esperança na Ressureição para a Vida Eterna.

– Qual o significado de levar flores aos túmulos e sepulturas? As flores nos lembram a alegria, a vida, a felicidade, a beleza, a saudade, a amizade e o amor para aquela pessoa falecida. As flores são símbolos da vida, paz, Ressurreição e de Eternidade. – Qual o significado de acender velas para nossos irmãos(as) falecidos?

 – A vela simboliza a luz da criação de Deus; é a luz do dia que ilumina as trevas.

A luz nos mostra e abre o caminho da Ressurreição e da Vida Eterna, junto de Deus.

Oração: “Senhor Jesus, Primeiro e Último, Alfa e ômega. O Vivente, que esteve morto, mas que agora está vivo para sempre. O todo-poderoso, que tem a chave da morte, me ajude a compreender que a morte é certa, sei bem. Mas, não há só morte. A morte é Vida Eterna no além. Amém”.

*Arcebispo Metropolitano de Santarém

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