Alimentos e bebidas já concentram quase 20% dos empregos industriais do Pará e miram salto com mais industrialização

Com 45,3 mil empregos e presença em todo o território paraense, setor que reúne cadeias como açaí, cacau, mandioca, carne bovina e dendê é apontado como uma das principais apostas para transformar matéria-prima amazônica em produtos de maior valor agregado

O Pará pode estar diante de uma das maiores oportunidades para transformar sua vocação produtiva em desenvolvimento industrial: fazer com que produtos que hoje saem do estado, muitas vezes, como matéria-prima ganhem processamento, tecnologia e valor antes de chegar ao mercado. A indústria de alimentos e bebidas, que já responde por 45.350 empregos e concentra 17,9% de todos os vínculos industriais do estado, foi apontada como um dos setores com maior potencial para impulsionar essa transformação.

O diagnóstico foi apresentado nesta segunda-feira (14), em Belém, durante o evento “Cadeias Produtivas – Alimentos e Bebidas”, promovido pela Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA), por meio do Observatório da Indústria, em parceria com o SENAI e a Rede de Observatórios do Sistema Indústria. A iniciativa reuniu dados e análises sobre cinco cadeias consideradas estratégicas para a economia paraense: açaí, cacau, mandioca, carne bovina e dendê.

O levantamento mostra a dimensão que o segmento já alcançou. Dos 253.791 empregos registrados nas 35 divisões industriais analisadas no Pará, 45.350 estão na fabricação de produtos alimentícios. A atividade ocupa a primeira posição entre os segmentos avaliados. A indústria de bebidas aparece na 14ª colocação. Juntas, as duas atividades formam um dos maiores blocos de empregos da indústria paraense.

Mais do que o tamanho atual, o setor chama atenção pelo comportamento considerado estável e pela capacidade de expansão. Diferentemente de atividades mais sujeitas a oscilações sazonais, a cadeia de alimentos apresenta crescimento contínuo, sustentado principalmente por segmentos como carne, outros produtos alimentícios, óleos e gorduras e conservas de frutas e vegetais. Esses grupos concentram 79,3% dos empregos do setor.

A força da cadeia também está diretamente ligada às características econômicas do Pará. A indústria utiliza matérias-primas provenientes da pecuária, da agricultura, da fruticultura, da produção de oleaginosas, do extrativismo e da pesca, criando uma conexão direta entre a produção no campo e a atividade industrial.

É justamente nessa conexão que está uma das principais oportunidades identificadas pela FIEPA: a verticalização. A ideia é ampliar o processamento dentro do próprio estado e fazer com que produtos paraenses cheguem aos mercados com maior valor agregado, em vez de deixar grande parte desse potencial econômico escapar na venda de matérias-primas.

Para o presidente do Sistema FIEPA, Alex Carvalho, o mapeamento ajuda a identificar caminhos para essa transformação. “Nós entendemos a importância de trazer essa oportunidade de verticalização. Nós identificamos o potencial do Pará na agregação de valor, trazendo o atributo da industrialização dos nossos produtos”, afirmou.

Segundo Carvalho, outro objetivo é aproximar a pesquisa aplicada das cadeias que representam as principais vocações econômicas do estado. A proposta é criar maior conexão entre indústria, instituições de apoio, especialistas e demais participantes do ecossistema produtivo, transformando conhecimento e tecnologia em soluções para problemas concretos enfrentados pelo setor.

O diretor regional do SENAI Pará e superintendente do SESI Pará, Dário Lemos, destacou que a iniciativa também busca ampliar a percepção sobre a capacidade produtiva da Amazônia. Para ele, existe um potencial econômico regional que ainda não recebeu a devida atenção.

“Nós sabemos o potencial que tem no estado e na Amazônia em si. E isso nunca foi visto. Nunca foi observado, nem por nós e principalmente por quem não é da região”, afirmou. Segundo Lemos, o setor de alimentos e bebidas pode atuar como indutor do desenvolvimento regional a partir de produtos que já possuem reconhecimento e demanda.

A escolha do segmento como ponto de partida do projeto de mapeamento das cadeias produtivas não ocorreu por acaso. Segundo o gerente do Observatório da FIEPA, Felipe Freitas, a indústria de alimentos reúne características que a colocam em posição estratégica: é a maior empregadora do setor industrial, apresenta crescimento acima da média, possui estabilidade, ampla presença territorial e participação no mercado internacional.

“Primeiro, é o maior empregador da indústria. Segundo, o crescimento acima da média. É um setor perene, estável e que apresenta crescimento”, explicou.

Outro diferencial é a capilaridade. Há empresas ligadas ao setor em diferentes regiões dos 144 municípios paraenses, o que amplia a possibilidade de que o fortalecimento dessas cadeias tenha impacto econômico para além dos grandes centros urbanos.

A demanda internacional também pesa nessa equação. Produtos associados à biodiversidade e à produção amazônica já conquistaram espaço em mercados de diferentes países, o que cria uma oportunidade para ampliar não apenas o volume exportado, mas também o valor dos produtos comercializados.

O mapeamento inicial concentra-se em cinco cadeias. A carne bovina aparece como o maior empregador entre os grupos analisados, enquanto açaí, cacau, mandioca e dendê representam cadeias com forte identidade regional e possibilidades de expansão por meio do processamento industrial, da inovação e da criação de novos produtos.

A proposta, no entanto, não se limita à análise das fábricas. O projeto considera toda a cadeia produtiva, desde a obtenção da matéria-prima até a chegada do produto ao consumidor. Isso inclui produção agrícola e extrativista, processamento, tecnologia, logística, comercialização e acesso aos mercados.

Para Claudio Rodrigues, coordenador estratégico do Instituto SENAI de Tecnologia – Alimentos e Bebidas, essa visão integrada permite compreender melhor os gargalos e as oportunidades do setor.

“Esse é um projeto que vai trazer não apenas o know-how, mas também uma visão diferente da realidade que a gente enfrenta na área de alimentos e bebidas”, afirmou. Segundo ele, o estudo acompanha o caminho que começa na produção da matéria-prima, seja pelo extrativismo ou pela agricultura, e termina na comercialização.

O mapeamento pretende, a partir dos dados reunidos, oferecer uma base para orientar políticas, investimentos e ações de inovação capazes de fortalecer a indústria paraense. A expectativa é identificar gargalos, tendências de mercado, oportunidades de crescimento e caminhos para ampliar a competitividade das empresas.

Em um estado cuja economia ainda tem forte dependência da exportação de commodities e matérias-primas, o fortalecimento da indústria de alimentos e bebidas abre uma frente estratégica: produzir mais, processar dentro do Pará e capturar uma parcela maior da riqueza gerada pelos próprios recursos regionais.

A aposta da FIEPA e das instituições parceiras é que a combinação entre matéria-prima, conhecimento, tecnologia e indústria possa transformar as vocações econômicas da Amazônia em cadeias produtivas mais competitivas e capazes de gerar emprego, renda e maior valor agregado dentro do próprio estado.

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