“Em mulher não se bate nem com uma flor”. A essa expressão ecoa há quase seis décadas desde que foi eternizada na canção Cala a Boca, Menino, de Capiba, em 1966. Era para ser um ensinamento simples, quase óbvio. Mas, tristemente, ainda hoje parece uma lição que muitos se recusam a aprender.
Quem bate em mulher não é homem. É um covarde! É um criminoso!
E a covardia não se limita a um tapa. Ela aparece nas agressões físicas, nas humilhações públicas ou às escondidas, nas ameaças, no controle psicológico e, muitas vezes, termina no pior desfecho possível: o feminicídio. Os números revelam uma realidade brutal. O Brasil registrou, em 2025, o maior número de feminicídios da história: 1.470 mulheres assassinadas. Quatro por dia. Oito em cada dez desses crimes foram cometidos por parceiros ou ex-companheiros.
O perigo, muitas vezes, mora dentro de casa.
São vidas interrompidas, famílias destruídas e uma sociedade que ainda tolera, silencia ou ignora a violência que acontece, na maioria das vezes, dentro de casa.
Dados mostram que 66% desses crimes acontecem no ambiente doméstico. Em quase metade dos casos, os assassinos usam objetos comuns, como facas ou machados. Instrumentos do cotidiano que se transformam em armas nas mãos de quem confunde amor com posse, relacionamento com domínio, frustração com violência.
E enquanto mulheres morrem, a sensação de impunidade ainda paira no ar.
A Lei do Feminicídio, criada em 2015, representou um avanço importante ao reconhecer que muitas mulheres são mortas pelo simples fato de serem mulheres. Mas onze anos depois, os números mostram que ainda estamos longe de vencer essa batalha. Em dez anos, os casos cresceram 316%. No Pará, somente em 2025, foram 63 vítimas.
Sessenta e três vidas interrompidas. Sessenta e três histórias que não terão continuação.
Enquanto isso, as mulheres seguem avançando. Empreendem, lideram, estudam, conquistam espaço, independência e voz. Hoje, mais de dez milhões de brasileiras estão à frente de negócios. Transformam suas vidas, suas famílias e comunidades inteiras.
E talvez seja justamente essa força, essa autonomia e essa liberdade que incomodem tanto covardes e criminosos que insistem em enxergar a mulher como propriedade.
Mas não podemos mais aceitar o silêncio.
Não podemos aceitar a naturalização da violência. Não podemos aceitar a omissão de quem presencia agressões e vira o rosto. Não podemos aceitar leis que ainda permitem brechas para que criminosos covardes escapem da punição que merecem.
É hora de reagir.
Denuncie. Apoie. Proteja. Oriente. Se você conhece uma mulher em situação de violência, não ignore. O Brasil tem uma rede de proteção que precisa ser acionada: delegacias especializadas, casas de apoio, serviços de acolhimento e o telefone 180, que funciona 24 horas para orientar e receber denúncias.
A violência contra a mulher não é um problema privado. É uma ferida social que precisa ser enfrentada por todos nós.
Este editorial é um grito. Um basta. Um recado direto aos covardes: a sociedade está olhando. E não vai mais se calar.
Que o 8 de março não seja apenas uma data de flores e homenagens, mas um momento de consciência, responsabilidade e ação.
Porque quando uma mulher vive sem medo, toda a sociedade respira liberdade.
E enquanto houver uma voz para denunciar, uma mão para acolher e uma sociedade disposta a lutar, ainda haverá esperança de que um dia nenhuma mulher precise mais temer pela própria vida.


