Santarém celebra a literatura em noite de versos, memórias e resistência

Entre poesias, memórias, histórias e taças de vinho, encontro reuniu escritores, poetas e amantes da literatura em uma noite de valorização da cultura santarena.

Santarém é terra de grandes nomes da música, da poesia e da literatura. Uma cidade onde a arte atravessa gerações, resiste ao tempo e encontra nos versos uma maneira de continuar contando suas histórias. Na noite desta terça-feira (3), essa vocação cultural ganhou um novo espaço de encontro. Palavras, memórias, poesia e resistência deram o tom do primeiro Sarau Literário do Emporium Santarém, realizado no oeste do Pará. Uma noite em que a literatura saiu das páginas dos livros para ocupar o ambiente, provocar sentimentos e aproximar pessoas.

Com o tema “Entre palavras, memórias e pertencimento – A literatura que nasce de nossas histórias”, o evento reuniu escritores, poetas, artistas e um público interessado em mergulhar no universo das letras. Em um ambiente acolhedor, entre conversas, degustação de vinho e recital de poesia, cada participante compartilhou um pouco da própria trajetória, suas experiências e a relação com a produção literária na região.

Mais do que uma programação cultural, o encontro foi um exercício de valorização da identidade santarena. Houve espaço para o lirismo, para a memória, para a reflexão e, sobretudo, para a arte compartilhada. Um público atento, ávido por absorver palavras, rimas e estrofes, acompanhou as apresentações e participou das conversas sobre os caminhos da literatura na Amazônia.

A iniciativa partiu dos manauaras Igelvanis de Souza, conhecida como Gil, e Heraldo Reis, que há pouco mais de um ano trouxeram para Santarém a proposta do Emporium: um espaço onde vinho, livros e cultura pudessem dividir o mesmo ambiente.

Segundo Gil, a ideia do sarau nasceu justamente da convivência com os clientes. As conversas sobre vinhos, livros e cultura despertaram o desejo de transformar aquele interesse espontâneo em um encontro literário.

“A proposta da casa sempre foi essa: você chega, toma um vinho, lê o seu livro. Por isso, já deixamos os livros espalhados aqui para incentivar a leitura. Os próprios clientes começaram a comprar a ideia, e daí surgiu o sarau”, explicou.

A intenção dos idealizadores é fazer da iniciativa uma programação permanente, com encontros mensais, tardes de poesia e rodas de conversa sobre livros. A proposta também é contribuir para ampliar os espaços de circulação da produção literária em Santarém.

E espaço para isso, segundo os próprios escritores, é justamente o que a cidade precisa multiplicar.

O jornalista e poeta Edinaldo Rodrigues não escondeu a satisfação com a iniciativa. Para ele, encontros como esse ajudam a fortalecer um movimento literário que vem amadurecendo em Santarém, mas que ainda encontra dificuldades para conquistar espaços de divulgação e convivência.

“Santarém precisa desses espaços. Nós estamos amadurecendo nossa produção literária, que vem de muito tempo, mas ainda temos poucos lugares para esse tipo de encontro. Espaços como esse chegam para potencializar e fortalecer a poesia e a literatura”, avaliou.

Edinaldo também destacou a qualidade das apresentações e a importância de resgatar a memória de artistas que ajudaram a construir a identidade cultural da região.

Um dos momentos mais simbólicos da noite foi a homenagem ao artista plástico e poeta Apolinário. Edinaldo Rodrigues fez a leitura de um poema do artista, lembrando sua trajetória e sua contribuição para a literatura santarena.

Apolinário participou de diversas semanas de poesia e ficou conhecido pela força contestadora de seus versos. Em 1994, segundo Edinaldo, venceu um festival de poesia realizado em Santarém com a obra Fracasso e Deus. A leitura foi também um gesto de reconhecimento a uma voz que, embora silenciada precocemente, permanece viva na memória cultural da cidade.

O poeta Neucivaldo Moreira, idealizador do projeto ‘Encontro’, também destacou a importância de iniciativas que abrem espaço para outras expressões artísticas além da música. Para ele, Santarém vive um momento de crescimento da produção literária, com novos autores, publicações e lançamentos de livros.

“Falar de literatura é sempre muito complicado, sempre muito mais difícil. Então, quando existe um espaço como esse, procurando valorizar não só a música, mas também a literatura, a gente precisa aproveitar”, afirmou.

Neucivaldo acredita que a cidade já possui público interessado e estrutura para receber encontros dessa natureza. Restaurantes, hotéis e outros espaços poderiam ser ocupados com saraus, rodas de leitura e apresentações literárias em diferentes horários e dias da semana.

A programação também contou com as participações de Mariana Sarmento, que abordou a literatura amazônica, ancestralidade e leitura; Gonzaga Blantez, com o tema ‘Das Águas do Igapó; além de apresentações de Neucivaldo Moreira e Edinaldo Rodrigues. O poeta e escritor Eduardo Serique também integrou o encontro.

Ao longo da noite, as experiências individuais se encontraram em uma construção coletiva. Histórias de vida viraram lembranças, lembranças encontraram os versos e os versos ganharam voz diante de quem estava disposto a ouvir.

No fim, ficou a sensação de que Santarém ainda tem muitas histórias para contar e muitos autores esperando por uma oportunidade de compartilhar suas criações, suas emoções, suas dores e amores. Afinal, uma cidade que tem na sua história tantos representantes da música e da literatura não pode deixar suas manifestações culturais confinadas às estantes ou às lembranças.

A arte continua viva. Sobrevive nos livros, nos poemas, nas telas, nas vozes e na resistência de quem insiste em produzir cultura.

O primeiro sarau do Emporium deixou uma promessa no ar: que seja apenas o primeiro de muitos. Porque, em Santarém, tudo pode virar poesia. Tudo pode virar arte. E toda palavra compartilhada é também uma forma de manter viva a memória e o amor pela cultura santarena.

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