Surto de doença de Chagas em Óbidos tem 7 casos confirmados e três pacientes hospitalizados

Infecção está associada ao consumo de vinho artesanal de patauá; 31 pessoas foram expostas à bebida e outras 24 seguem em investigação epidemiológica.

Um surto de doença de Chagas associado ao consumo de vinho artesanal de patauá deixou sete pessoas infectadas na zona rural de Óbidos, no oeste do Pará. Três pacientes estão hospitalizados, sendo um deles internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospital em Oriximiná. A confirmação foi feita na sexta-feira (6) pela Secretaria Municipal de Saúde, por meio do Departamento de Vigilância em Saúde, e acendeu o alerta epidemiológico no município, onde não eram registrados casos graves da doença havia mais de 20 anos.

A bebida foi consumida no dia 21 de setembro e alcançou moradores das comunidades Fuzil e Liberdade, localizadas às margens da rodovia PA-429, a aproximadamente 41 quilômetros da sede municipal. Juntas, as duas localidades possuem cerca de 380 habitantes. Ao todo, 31 pessoas tiveram exposição direta ao produto. Desse grupo, duas estão atualmente em Manaus (AM), três em Oriximiná e as demais permanecem em Óbidos.

Entre os sete casos confirmados, quatro pacientes estão em acompanhamento ambulatorial, com quadro clínico estável e sem sintomas no momento. Os outros três permanecem hospitalizados. Uma paciente recebe assistência no Hospital Santa Casa de Óbidos, enquanto outro paciente foi transferido para a UTI do Hospital Menino Jesus, em Oriximiná.

Na fase aguda da infecção, os pacientes apresentaram sintomas como diarreia, febre intermitente, dor abdominal, vômitos, dores pelo corpo e inchaços na face e nos membros inferiores.

As equipes da Vigilância em Saúde realizaram avaliações clínicas e exames laboratoriais nas pessoas expostas que permanecem em Óbidos. A triagem inicial foi feita por meio do exame de gota espessa, utilizado para pesquisar a presença do parasita na corrente sanguínea.

As outras 24 pessoas que tiveram contato com a bebida, mas ainda não tiveram a doença confirmada, continuam sob investigação epidemiológica. Mesmo quando o primeiro exame apresenta resultado negativo, o protocolo prevê novas pesquisas laboratoriais e o envio de amostras de sangue para exames sorológicos mais aprofundados em Belém.

O acompanhamento conta com o apoio da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), por meio do 9º Centro Regional de Saúde, em Santarém, que fornece orientações técnicas para o atendimento dos pacientes e disponibiliza a medicação específica para o tratamento.

Segundo Isabela Taketomi, diretora-executiva do Departamento de Vigilância em Saúde de Óbidos, o medicamento utilizado como primeira escolha no tratamento da fase aguda é o Benznidazol, de 100 miligramas. A liberação é feita pela Sespa mediante apresentação da ficha de notificação do caso, prescrição médica e exames complementares laboratoriais e de imagem.

Investigação identificou falhas na produção da bebida

A investigação sanitária identificou que o vinho de patauá foi produzido artesanalmente para consumo doméstico de uma família. Os frutos foram colhidos em outra comunidade e a bebida não foi comercializada, mas compartilhada entre parentes e conhecidos das comunidades Fuzil e Liberdade.

Durante a fiscalização no imóvel de origem, localizado na Vila Liberdade, as equipes encontraram irregularidades nas condições de manipulação dos frutos. A despolpadeira funcionava na varanda da residência, em ambiente aberto, com piso de cimento grosso e sem barreiras físicas ou proteção contra poeira e vetores.

Segundo a Vigilância Sanitária, essas condições favorecem a presença de insetos transmissores da doença e aumentam o risco de contaminação dos alimentos.

Diante das irregularidades, o local foi lacrado e o responsável suspendeu voluntariamente as atividades de processamento e manipulação de frutos, incluindo açaí, bacaba e patauá. A Vigilância Sanitária também emitiu um Termo de Orientação, estabelecendo prazo de 30 dias para adequação das instalações.

Para retomar a produção, o responsável deverá reestruturar o espaço e participar de capacitações sobre boas práticas de manipulação de alimentos. Entre as exigências estão a seleção adequada dos frutos, a tripla lavagem e o processo térmico de branqueamento, procedimentos fundamentais para reduzir o risco de contaminação pelo parasita.

Como ocorre a transmissão da doença de Chagas?

A doença de Chagas é causada pelo parasita Trypanosoma cruzi, transmitido principalmente pelo contato com as fezes do inseto conhecido popularmente como barbeiro.

Na região amazônica, a transmissão oral é uma das principais formas de contaminação. Isso pode acontecer quando o inseto transmissor ou suas fezes são triturados acidentalmente junto com frutos utilizados na produção de bebidas artesanais, como açaí, bacaba e patauá.

A falta de higienização adequada dos frutos e de tratamento térmico durante o processamento aumenta o risco de transmissão.

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